Definitivamente era amor o que ele sentia. Cada olhar era como um golpe violento no seu peito. Diariamente em cada lugar que fosse, golpes múltiplos rasgavam suas entranhas. Verdadeiramente era amor. Se não fosse, então o que seria? E que diabos então seria o amor, senão a veneração instantânea e incondicional, a vontade incontrolável de tocar, o esquecimento de toda e qualquer mazela natural, política, social ou pessoal em uma fração de segundo? A vontade de correr e gritar sem saber pra onde e nem pra que, movido apenas pela emoção do encontro? Ter o peito comprimido por um torniquete imaginário, se angustiar e ainda assim querer mais e mais disso tudo?
Era isso que ele sentia sentado naquela canteiro todos os dias, na hora do cigarro. Era o que ele sentia todas as manhãs naquela cozinha, na hora do café. Era o que ele sentia todos os dias de pé no aperto do metrô. Um dia pensou que em outra vida fora algum ser cruel e insensível. No retorno, fora condenado a ver, a ouvir, a sentir cheiro e o tato. Seu castigo era ter olhos, ouvidos, nariz, dedos, boca…Coração!
Em nenhuma delas haveria de existir defeito que se sobressaísse à uma qualidade. Se a pele não ajudava, o sorriso o derrubava. Se a voz incomodava, o olhar desmantelava.
Com a paixão que carregava no peito frequentemente confundinda com lascívia, tentou se conter.
Desejava e temia ao mesmo tempo, o dia em que encontraria aquela sem “poréns”. Encontrou, e achou que não poderia suportar…
Procurando alívio, arrancou seu coração, de quem era prisioneiro, com as próprias mãos e o pôs nas mãos dela, esperando que sem o porém do medo ela arrancasse o seu e o desse a ele.
Com a mão cheia, apertada e ensanguentada ela o fita.
“Não fuja…” – Deseja ele.
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