Tenho tentado reavivar esse espaço que eu mesmo e mais uns quatro ou cinco acompanhavam há uns dois anos atrás, quando me meti a besta e tentei virar cronista da vida. A chama foi sendo apagada pelo cruel cotidiano, o mesmo que eu pensava em retratar por aqui, mas decidi retomar a batalha. Re-lendo os textos publicados aqui no passado, acabei me identificando novamente com alguns deles, então decidi re-publicar aquele que na re-leitura de hoje foi o que mais gostei… Lá vai:
Kind Of Beauty, de 29 de julho de 2009.
Mês de julho é o mês dos passeios semanais, das casas cheias em qualquer dia, de reencontro com aqueles batalhadores amigos que estudam e trabalham, em busca daquela sonhada carreira acadêmica que os respectivos pais sonharam desde o dia em que ouviram o primeiro chorinho rasgado, que lavaram pela primeira vez a pingolinha ou a periquita de sua cria. Época essa em que o RPM era sucesso e em que nem passava pela cabeça do cabeça da casa o tamanho da sordidez dos atos de seu recém fabricado, vinte e quatro, vinte e cinco anos à frente.
Fruto de um amor que talvez nem exista mais ou fruto de uma foda avulsa em baile de carnaval, não se imaginava também que aquela carinha de joelho poderia tomar tais formas atraentes. Que aqueles ombrinhos frágeis se alargariam de forma a formar a mais bela das saboneteiras. Que aqueles olhinhos apertados de tanto chorar teriam a mipoía que definiria a personalidade daquele rosto em óculos de armação fina. Que a esperneação por um peito cheio de leite evoluiria até um remelexo perturbador por um olhar. Que naquela cabecinha pelada haveria um corte da moda, que chacoalharia no compasso da banda, fazendo balançar também os joelhos e o coração de qualquer um que desse a devida atenção.
Ao me levantar, já sabia que esse não seria mais um dia ordinário. Após sonhar com os números da mega-sena, me estiquei olhando pra cima até me acostumar com a idéia de ainda ser pobre, então levantei-me, liguei o paulo-césar, joguei pra cima o pijama e fui me despertar no chuveiro, já pensando no percurso até o lar de minha paixão futebolística. É terça feira, véspera de rodada, dia de comprar ingresso antecipado. Dia cinza e feio como a maioria dos dias do mês de julho, aquele dos reencontros. Feita toda a rotina, parti para as tarefas do dia: contribuir para a renda dos pobres jogadores que atuam de verde, encontrar gente querida que não via a tempos e ao final de tudo, todos juntos, curtir aquele jazz, sem se preocupar com aborrecimentos.
Deixemos de lado a parte burocrática do dia e concentremo-nos apenas na parte onde a emoção aparece. Ao encontrar-me como peça fundamental de um quebra-cabeça hype, minha mais nova amiga filósofa sorriu, se assentou, tomou café, falou do trajeto e me escutou. Falou, me escutou, falou… Conversa boa, regada à cerveja e bom humor, fora os amendoins com casca de cebola e salsa. Achegou-se um artista pintor, o ambiente enriqueceu-se. Toda sorte de assunto apareceu, e nisso algumas horas se passaram. E aí o leitor pensa: “Mas onde diabos está a originalidade desse dia miserável? Eu também tenho amigos! Eu também rio, filosófo! Também bebo café! Eu também sou hype!”.
O já estabelecido e sagrado cool jazz de toda terça do mês de julho teria hoje a casquinha de cebola e salsa que havia faltado nas outras terças. Amendoim é bom, ainda mais com cerveja gelada, porém a casquinha de cebola e salsa dá o toque de originalidade à botecagem e a esse dia. Começa o som, uma introdução psicodélica que acabou desaguando em “All Blues”, do celebrante de bodas de ouro “Kind of Blue”, pra quem não sabe, clássico definitivo de Miles Davis. Tamanha a destreza da banda, pensei ser impossível desviar-se da apresentação. Nem mesmo a mais irritante mente com a mais irritante voz me faria reviver a tristeza e revolta de duas semanas atrás (leia “Cu Jazz”); Olhando para a minha esquerda, tive instantaneamente a certeza de que estava errado. Lá estava ela. Dançando conforme o balanço da versão funkeada e arrebatadora de “So What?”, a filha daquele pai sonhador, daquele que hoje no alto de sua sabedoria e calvice, se lembra dos tempos em que trocava as fraldas daquela beldade que se despedia umas duas horas mais cedo pra balada em plena terça feira. Aquela que nos pensamentos de seu pai, estudaria nutrição ou psicologia, conheceria um moço bom de família e daria netos aos futuros velhotes lá pelos 25.
Puro devaneio. Agora lá pelos 25, ela fumava, bebia e serpenteava na frente do palco, deixando boquiabertos o artista-pintor e eu. Ela parecia não ligar, nem se dar conta. A reação ao som e a imagem quase me levaram à catarse, que só não foi coletiva por falta de atenção dos demais. Eu que saí de casa cheio de pesar, de dor, de dúvida, de medo, como todo sujeito comum numa cidade grande, a partir daquele instante me via leve como uma pena. A beleza daquela criança imaculada do passado lavava a minha dor como o sangue de Cristo lavou os pecados da terra.
Da série de shows que Júnior Boca & Psicho Jazz apresentou nas terças do mês das férias estudantis, o de hoje foi o melhor. Mesmo com os noves fora, mesmo com apenas a música, os temas de Miles tão bem explorados pelo quarteto no palco. Foi arrebatador.
Mas a casquinha de cebola e salsa foi aquela que perpetuou-se na minha retina. Sem nome, só com formas e displicência. Aquela com encantos com os quais pai nenhum sonhará para sua filha, mas pelos quais qualquer ser vivo na terra há de ser grato ao pai celestial por existirem.
Já dizia o surrado texto de Dostoiévski: “… A beleza é terrível! Terrível” (…) Não posso suportar que um homem de coração superior e poderosa inteligência tenha a Madona por primeiro ideal e Sodoma por último. Ainda mais terrível, porém, é ter já o ideal de Sodoma na alma e não negar o da Madona, sentindo o coração se abrasar, sim, abrasar-se como nos inocentes anos de juventude. Não, o homem é vasto em suas concepções, muito vasto. Eu gostaria de torná-lo mais estreito. Diabo! O que ao cérebero aparece como abjeção é, para o coração, a quinta-essência da beleza. Estará a beleza encarnada em Sodoma? É lá que ela reside para a grande maioria dos homens – conhecias esse mistério? O que mais me apavora é que a beleza não só é terrível, mas também misteriosa. O demônio luta com Deus e o campo de batalha são os corações humanos. Aliás é sempre assim: só fala-se daquilo que nos faz sofrer. Vamos, pois, agora, aos fatos.”
Sim, a beleza é de fato terrível. Ou melhor, terrível é o fato de que eu nunca mais verei tal beleza.
E amanhã de manhã, todo o meu pesar vai estar de volta, com mais força e desesperança. Ao menos que o imponderável aconteça. Ou até o próximo amor de metrô, amor de fila de banco, amor de show de jazz…