Perdi o caminho de casa. Penso naquele lugar todos os dias, todas as noites, até mesmo no inconsciente do meu sono, anseio por um dia poder voltar. Mas eu perdi o caminho. Não sei como cheguei até aqui, e não tenho ideia do lado pelo qual devo seguir, para voltar ao meu lar.
Engraçado pensar que, quando lá eu estava, cheguei a amaldiçoar o lugar, desvalorizar aquele ambiente… Eu estava tão confortável, que cheguei a me entediar. Me sentia tão perdido quanto me sinto hoje, pois também não sabia pra onde ir, só que ali era o meu domínio, e ali eu me dominava. E daí que vieram diferentes andanças da vida, e de longe avistei uma estrada florida, esverdeada, que cheirava bem e reluzia no meio de vários outros caminhos menos interessantes. No ímpeto da aventura, na sede pelo novo, sem bagagem nem documento, passei a caminhar. No início, eram flores, pássaros, brisa leve e um silêncio musical. Desacelerei o passo, apreciei cada centímetro do caminho, e não olhei mais pra trás.
Após andar algumas léguas que me dei conta do quão distante de casa eu já estava e de que me faltavam recursos, e a minha identidade. Foi a única vez em que titubeei. Eu já não tinha o conforto do lar, mas o desconhecido no final da estrada me agradava mais, e a falta de identidade pouco me importava, pois quando eu chegasse à esse novo lugar, eu poderia ser quem eu quisesse, então segui viagem.
Andando devagar, apreciando noites e dias de encanto, o riso vinha fácil como o fôlego que me sustentava. Tempos depois, o caminho deu em um lugar ainda mais bonito e acolhedor. Logo que cheguei à entrada da cidadela, fui recebido com afagos e festejos, fui vestido, banhado e alimentado. Celebraram-me por 7 dias, e eu já não sabia mais como que eu fui perder tanto tempo no lugar de onde eu saí. Aquilo sim era vida. Então passaram-se semanas, e depois meses, e aquilo tudo acabou por tornar-se completamente normal para mim. Esqueci do quão ruim era o meu lugar, e eu sequer me lembrava de que eu havia vindo de algum outro lugar.
No meu novo habitat, fui recebido e tratado como rei, e então sem notar, me apossei da coroa, e o poder tomou conta de mim. Desprezei quem me acolheu, cuspi no chão onde me estenderam um tapete novo, deitei numa rede que não era a minha, levantei a mão para quem me acarinhou, cerrei os punhos e franzi a testa para quem só me sorria.
E aí o que era belo e libertador, tornou-se então cinza e angustiante. Eles, que me deram todas as honrarias quando cheguei, foram tomados primeiro por uma tristeza sem fim, e depois, em seus corações já inflamados, por vingança e amargura.
Cansados da minha cegueira e da minha tirania, quiseram me pôr pra fora da cidadela, mas não faziam ideia de onde eu tinha vindo, e jamais acreditaram no meu esquecimento. Então se revoltaram, me pegaram pelos braços e pernas e me arrastaram pelas ruas de terra. Passaram a me açoitar, dia após dia, noite após noite. Negaram me a comida, e debochavam da minha fraqueza. Cortaram-me os cabelos, rasgaram-me as vestes e atiraram pedras em mim. Nada havia sobrado daquele primeiro amor naqueles corações feridos. Me viam como monstro, e em monstro se transformaram, para me fazer partir.
Eu quis me desculpar, eu quis me redimir, eu quis recomeçar, mas aquele povo era orgulhoso, e apesar do início terno, carregavam uma soberba cruel em seus corações. Jamais me perdoariam por macular o seu chão, e mesmo que se enternecessem por algumas vezes, e quisessem em seu íntimo me perdoar, a mágoa era maior. Amaram-me com toda a verdade, receberam-me sem defesa, e pagaram um preço. Não me vitimizei, e passei tempos aceitando toda a sorte de castigos, na esperança de que um dia me perdoassem e então eu pudesse recomeçar naquele mesmo lugar o meu reinado, e amar a toda aquela gente de toda a minha alma. Queria cuidar de cada um dos filhos daquela terra.
O relógio deu sete mil voltas, e nada mudou. Na terra do amor incandescente, havia de tudo, menos perdão. Me puniram tanto, e me culpei tanto, que já não poderiam me amar novamente. E como haveriam de me amar novamente, se nem mesmo eu me amava mais?
Então, de vestes rasgadas, cabelos desalinhados, com cara e cheiro de abandono, passei a perambular naquele lugar. Lembrei-me do meu lar. Do quão senhor de mim eu era quando lá habitava. Lembrei-me do quão bom e suave, era reinar a mim mesmo e para mim mesmo. Mas eu não sabia voltar…
E riam de mim pelas ruas. Encontraram um novo rei, e depois outro, e depois outro, e depois outro… Mas de todos os reis depostos, o único a ser rebaixado a bobo, fui eu. Tomado de desespero e já sem forças, me pus a correr. Corri, corri, corri, sem ideia de onde chegaria. Fui longe, muito longe, e passei semanas longe de toda a humilhação diante daquela gente. Me recompus, adquiri certo ânimo, e voltei a caminhar. Quando dei por mim, estava lá de novo. Era em círculos que eu andava, e só me cansei, sem sair do lugar.
De aparência melhor, fui menos hostilizado. Me deixaram ficar, mas ao invés do perdão, me deram cinismo, e uma grande dose de desconfiança. E eu já não podia mais viver assim… Já havia quitado meus débitos com aquela gente! Mas nunca soube do que eram capazes os corações feridos.
Então a qualquer custo, resolvi voltar. Rezei a todos os orixás, e fiz todas as promessas, pra que eu encontrasse o meu caminho de volta pra casa. E a resposta do céu não veio. O perdão não veio. O alívio não veio. A culpa não se foi. A mágoa não se foi.
Rodo, rodo e não saio do lugar.
Eu sinto falta do meu lar, pois era só lá, cidadela, que eu sabia não te amar.
A cidadela sabe viver só de ilusão, orgulho e mentira, e como está em ruínas desde então, não creio que volte a ser como era antes… cidadela é a decadência.
Não sei se você entendeu direito o texto…
“Mas eu não sabia voltar…”
acho que tambem não sei.