O que se pode fazer de uma noite de terça feira?! “Nada”, responde o leitor. Ainda mais uma dessas, geladas de arranhar a face.
Houve uma noite de terça feira em que fui agraciado. Ligam-me os companheiros de boemia com um convite tentador, um show de cool jazz, na faixa, lá naquela ladeira cheia de casas com neon na porta. Aceitei de pronto, não sou besta.
A turma era grande e além dos habitués, apareceram também umas amigas que não víamos a tempos, o que no primeiro momento acabou nos alegrando. Pessoal do mais alto nível astral, gente falante… Quem não gosta afinal?!
Adentramos ao local, um dos mais hypes da província augustiana e cada um já pegou seu drink predileto. Eu, doente que sou, já busquei uma garrafinha verde pra combinar com a minha blusa do meu time do coração. Papo vai, papo vem, apagam-se as luzes e o som começa.
É sabido por qualquer frequentador da noite que numa noite de terça feira, num show de jazz, numa celebração de 50 anos da obra prima de Miles Davis, Kind of Blue, o público na sua esmagadora maioria é selecionado. A mínima etiqueta musical é esperada, certo? Não quando se juntam três figuras do mais alto nível astral, gente falante… Lembram?
Enquanto soavam nos monitores da casa os primeiros acordes de “So What?”, um relato emocionado do casamento da vizinha rasgava os ventos e os tímpanos alheios em volume ensurdecedor. E de tempos em tempos, no decorrer da peça, berros agudos de empolgação saíam de uma garganta envolta num cachecol cor de rosa, fazendo o mestre Miles dar giros de 360 graus em sua sepultura. Em minutos, uma noite de cool jazz acabou se tornando uma noite de “Cu Jazz”.
Já desconectado do que acontecia no palco, só consegui me lembrar de Hippolit, personagem xaropeta de “O Idiota”, de Dostoiévski: “Melhor ser infeliz e estar inteirado disso, do que ser feliz e viver como idiota.”
Ah que beleza!!! Quero sua versão para a noite de bizarrices no Ocean, onde assistimos de camarote o defloramento de uma perva-mirim.
Otimo texto….testemunho fiel de uma terça….que me tem como testemunha…..
Até Dostoiévski tu tá citando, rapá!
Cabra bão esse.
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