Meu Amor Frankenstein

Te montei na minha cabeça.

Peguei cada de pedaço de boa memória, juntei com uma pitada de sonho, cobri com um pouco de boa fama, fechei os olhos e te imaginei. Quando os abri, já te amava.

Você tem rosto, tem ombros, tem sorriso. Seus movimentos e seu cheiro eu forjei de modo que não penso em outra coisa senão no que não conheço. Na minha versão de você a sua risada me salva o dia, seu afago me conforta e seu olhar me inebria. Na minha fábula de um só, você é de ninguém e você é minha.

Na minha historinha, rezo pro dia passar e pra noite chegar pra eu poder te abraçar. A você da minha cabeça faz meu coração transbordar, cafona de tanta alegria.

No meu conto particular, sua pele é da cor da minha paz. Seu beijo é especiaria e seus cabelos coroam a sua real beleza. Eu te venero, sou teu súdito. Você reina sobre mim.

E lá, até os seus defeitos te engrandecem. Nada pode ser maior do que a sinergia entre você e eu. Você é minha criatura e eu sou teu criado.

O meu mundo é esse mesmo, foi só você que eu inventei.

Se faça real. É possível, eu sei;

Insuportável.

A beleza é insuportável aos meus olhos! A beleza me perturba, muito mais que a feiura. Não, não, a feiura não me causa nenhuma perturbação. Com a feiura se acostuma, da feiura se ri, da feiura se esquece. Não há sequelas para os olhos diante da feiura. Já a beleza não… Já a TUA beleza não….

Tua beleza aperta o peito. Tua beleza põe o coração em um torniquete e cada movimento da tua musculatura é como uma volta que o aperta ainda mais. Tua beleza causa uma hemorragia que nada é capaz de estancar. Tua beleza dilacera a alma, me põe em gemidos silenciosos, me tira o juízo e me deixa febril.

Tua beleza é uma praga. Tua beleza me faz ridículo, me tira o ar, me turva a vista e me faz te odiar. Me esmaga e faz com que eu queira me cegar.

Tua beleza é horrível. Horrível por meu causar horror.

Chega a me dar um desespero tamanho,que me trava o corpo, me gela a mente, me esquenta o sangue, que não me deixa nem gritar.

Declínio.

Ganho peso,
Perco cabelo.
Ganho dor,
Perco mobilidade.
Ganho sabedoria,
Perco paciência.
Ganho cautela,
Perco coragem.
Ganho dinheiro,
Perco saúde.
Ganho paz,
Perco amor.

Alívio.

Definitivamente era amor o que ele sentia. Cada olhar era como um golpe violento no seu peito. Diariamente em cada lugar que fosse, golpes múltiplos rasgavam suas entranhas. Verdadeiramente era amor. Se não fosse, então o que seria? E que diabos então seria o amor, senão a veneração instantânea e incondicional, a vontade incontrolável de tocar, o esquecimento de toda e qualquer mazela natural, política, social ou pessoal em uma fração de segundo? A vontade de correr e gritar sem saber pra onde e nem pra que, movido apenas pela emoção do encontro? Ter o peito comprimido por um torniquete imaginário, se angustiar e ainda assim querer mais e mais disso tudo?
Era isso que ele sentia sentado naquela canteiro todos os dias, na hora do cigarro. Era o que ele sentia todas as manhãs naquela cozinha, na hora do café. Era o que ele sentia todos os dias de pé no aperto do metrô. Um dia pensou que em outra vida fora algum ser cruel e insensível. No retorno, fora condenado a ver, a ouvir, a sentir cheiro e o tato. Seu castigo era ter olhos, ouvidos, nariz, dedos, boca…Coração!
Em nenhuma delas haveria de existir defeito que se sobressaísse à uma qualidade. Se a pele não ajudava, o sorriso o derrubava. Se a voz incomodava, o olhar desmantelava.
Com a paixão que carregava no peito frequentemente confundinda com lascívia, tentou se conter.
Desejava e temia ao mesmo tempo, o dia em que encontraria aquela sem “poréns”. Encontrou, e achou que não poderia suportar…
Procurando alívio, arrancou seu coração, de quem era prisioneiro, com as próprias mãos e o pôs nas mãos dela, esperando que sem o porém do medo ela arrancasse o seu e o desse a ele.
Com a mão cheia, apertada e ensanguentada ela o fita.
“Não fuja…” – Deseja ele.

Replay

Tenho tentado reavivar esse espaço que eu mesmo e mais uns quatro ou cinco acompanhavam há uns dois anos atrás, quando me meti a besta e tentei virar cronista da vida. A chama foi sendo apagada pelo cruel cotidiano, o mesmo que eu pensava em retratar por aqui, mas decidi retomar a batalha. Re-lendo os textos publicados aqui no passado, acabei me identificando novamente com alguns deles, então decidi re-publicar aquele que na re-leitura de hoje foi o que mais gostei… Lá vai:

Kind Of Beauty, de 29 de julho de 2009.

Mês de julho é o mês dos passeios semanais, das casas cheias em qualquer dia, de reencontro com aqueles batalhadores amigos que estudam e trabalham, em busca daquela sonhada carreira acadêmica que os respectivos pais sonharam desde o dia em que ouviram o primeiro chorinho rasgado, que lavaram pela primeira vez a pingolinha ou a periquita de sua cria. Época essa em que o RPM era sucesso e em que nem passava pela cabeça do cabeça da casa o tamanho da sordidez dos atos de seu recém fabricado, vinte e quatro, vinte e cinco anos à frente.

Fruto de um amor que talvez nem exista mais ou fruto de uma foda avulsa em baile de carnaval, não se imaginava também que aquela carinha de joelho poderia tomar tais formas atraentes. Que aqueles ombrinhos frágeis se alargariam de forma a formar a mais bela das saboneteiras. Que aqueles olhinhos apertados de tanto chorar teriam a mipoía que definiria a personalidade daquele rosto em óculos de armação fina. Que a esperneação por um peito cheio de leite evoluiria até um remelexo perturbador por um olhar. Que naquela cabecinha pelada haveria um corte da moda, que chacoalharia no compasso da banda, fazendo balançar também os joelhos e o coração de qualquer um que desse a devida atenção.

Ao me levantar, já sabia que esse não seria mais um dia ordinário. Após sonhar com os números da mega-sena, me estiquei olhando pra cima até me acostumar com a idéia de ainda ser pobre, então levantei-me, liguei o paulo-césar, joguei pra cima o pijama e fui me despertar no chuveiro, já pensando no percurso até o lar de minha paixão futebolística. É terça feira, véspera de rodada, dia de comprar ingresso antecipado. Dia cinza e feio como a maioria dos dias do mês de julho, aquele dos reencontros. Feita toda a rotina, parti para as tarefas do dia: contribuir para a renda dos pobres jogadores que atuam de verde, encontrar gente querida que não via a tempos e ao final de tudo, todos juntos, curtir aquele jazz, sem se preocupar com aborrecimentos.

Deixemos de lado a parte burocrática do dia e concentremo-nos apenas na parte onde a emoção aparece. Ao encontrar-me como peça fundamental de um quebra-cabeça hype, minha mais nova amiga filósofa sorriu, se assentou, tomou café, falou do trajeto e me escutou. Falou, me escutou, falou… Conversa boa, regada à cerveja e bom humor, fora os amendoins com casca de cebola e salsa. Achegou-se um artista pintor, o ambiente enriqueceu-se. Toda sorte de assunto apareceu, e nisso algumas horas se passaram. E aí o leitor pensa: “Mas onde diabos está a originalidade desse dia miserável? Eu também tenho amigos! Eu também rio, filosófo! Também bebo café! Eu também sou hype!”.

O já estabelecido e sagrado cool jazz de toda terça do mês de julho teria hoje a casquinha de cebola e salsa que havia faltado nas outras terças. Amendoim é bom, ainda mais com cerveja gelada, porém a casquinha de cebola e salsa dá o toque de originalidade à botecagem e a esse dia. Começa o som, uma introdução psicodélica que acabou desaguando em “All Blues”, do celebrante de bodas de ouro “Kind of Blue”, pra quem não sabe, clássico definitivo de Miles Davis. Tamanha a destreza da banda, pensei ser impossível desviar-se da apresentação. Nem mesmo a mais irritante mente com a mais irritante voz me faria reviver a tristeza e revolta de duas semanas atrás (leia “Cu Jazz”); Olhando para a minha esquerda, tive instantaneamente a certeza de que estava errado. Lá estava ela. Dançando conforme o balanço da versão funkeada e arrebatadora de “So What?”, a filha daquele pai sonhador, daquele que hoje no alto de sua sabedoria e calvice, se lembra dos tempos em que trocava as fraldas daquela beldade que se despedia umas duas horas mais cedo pra balada em plena terça feira. Aquela que nos pensamentos de seu pai, estudaria nutrição ou psicologia, conheceria um moço bom de família e daria netos aos futuros velhotes lá pelos 25.

Puro devaneio. Agora lá pelos 25, ela fumava, bebia e serpenteava na frente do palco, deixando boquiabertos o artista-pintor e eu. Ela parecia não ligar, nem se dar conta. A reação ao som e a imagem quase me levaram à catarse, que só não foi coletiva por falta de atenção dos demais. Eu que saí de casa cheio de pesar, de dor, de dúvida, de medo, como todo sujeito comum numa cidade grande, a partir daquele instante me via leve como uma pena. A beleza daquela criança imaculada do passado lavava a minha dor como o sangue de Cristo lavou os pecados da terra.

Da série de shows que Júnior Boca & Psicho Jazz apresentou nas terças do mês das férias estudantis, o de hoje foi o melhor. Mesmo com os noves fora, mesmo com apenas a música, os temas de Miles tão bem explorados pelo quarteto no palco. Foi arrebatador.

Mas a casquinha de cebola e salsa foi aquela que perpetuou-se na minha retina. Sem nome, só com formas e displicência. Aquela com encantos com os quais pai nenhum sonhará para sua filha, mas pelos quais qualquer ser vivo na terra há de ser grato ao pai celestial por existirem.

Já dizia o surrado texto de Dostoiévski: “… A beleza é terrível! Terrível” (…) Não posso suportar que um homem de coração superior e poderosa inteligência tenha a Madona por primeiro ideal e Sodoma por último. Ainda mais terrível, porém, é ter já o ideal de Sodoma na alma e não negar o da Madona, sentindo o coração se abrasar, sim, abrasar-se como nos inocentes anos de juventude. Não, o homem é vasto em suas concepções, muito vasto. Eu gostaria de torná-lo mais estreito. Diabo! O que ao cérebero aparece como abjeção é, para o coração, a quinta-essência da beleza. Estará a beleza encarnada em Sodoma? É lá que ela reside para a grande maioria dos homens – conhecias esse mistério? O que mais me apavora é que a beleza não só é terrível, mas também misteriosa. O demônio luta com Deus e o campo de batalha são os corações humanos. Aliás é sempre assim: só fala-se daquilo que nos faz sofrer. Vamos, pois, agora, aos fatos.”

Sim, a beleza é de fato terrível. Ou melhor, terrível é o fato de que eu nunca mais verei tal beleza.

E amanhã de manhã, todo o meu pesar vai estar de volta, com mais força e desesperança. Ao menos que o imponderável aconteça. Ou até o próximo amor de metrô, amor de fila de banco, amor de show de jazz…

Do que nunca havia falado…

Levantei com uma vontade louca de dizer que te amo,
Levantei com a mente cheia de lembranças.
As mais antigas, lindas e gloriosas.
As mais recentes, difíceis porém fortificantes.
A música que embala o nosso passado é de orquestra
A imagem é lenta, pra que os sorrisos durem mais,
Pra que as lágrimas de alegria rolem mais devagar…
Eu lembro, eu vi, eu vivi
Mas não esqueço jamais que você ainda está aqui,
Jamais esqueço que sempre estará.
A casa onde nosso amor foi construído está no chão,
Os tempos tem sido difíceis…
Mas amor não é amor se não sobrevive às provas da vida.
Sofro junto contigo, morro e renasço junto contigo.
O que sinto é incondicional…
Alguns me chamam de tolo por te amar tanto,
Mas não estou sozinho.
São mais 15 milhões amando a eterna e altiva Sociedade Esportiva
Na vitória ou na derrota, jamais vou te esquecer
Porque Palmeiras, minha vida é você!

Blue Jeans

E dizem por aí que o corpo humano é composto em sua maioria por água. Dizem por aí que a tese é comprovada e tudo mais e sendo assim, quem sou eu pra discordar? Teve até o Clodovil, que no fim dos seus dias dizia que, pra acabar com o problema da falta de água no mundo era só matar uma galera. Segundo ele, não para que esse pessoal deixasse de beber água e sim porque como somos majoritariamente compostos de água (75%? Não sei.), ao desfazermo-nos debaixo da terra, apareceria água em algum canto.
Fruto de delírio? Sabedoria? Também não sei. Só sei que seria maldade demais dizer que a essa hora, segundo a tese, o próprio já fora bebido há muito tempo como um copo de água fresca.

“Mas e aí? E os 25% que “sobra”?”, me pergunta o Tarado, meu garçom favorito. Isso se deu em um debate acalorado em uma daquelas mesas da esquina da Alameda Santos com a Rua da Consolação. Chegamos lá com aquela bela ideia de que somos todos iguais, que ninguém é melhor do que ninguém e etc… Os números comprovam, afinal. Setenta e cinco porcento é muita coisa…
Daí que a Mariana falou: “Vocês vão me desculpar mas eu não sou igual a todo mundo não. Estão vendo esse monte de vagabunda passando? Basta fazer cinco grauzinhos à mais de calor e lá saem elas de shortinho querendo chamar atenção. Eu não sou dessas!
Eu leio, eu estudei teatro, eu vejo filme europeu, eu falo três línguas, estudo artes plásticas e história da arte há anos! Não quero homem olhando pra minha bunda, sou mais que isso!”. Ela trajava uma calça jeans tradicional, e quando levantou-se para ir ao banheiro, eu calado observei que havia pano demais na retaguarda. Sim, eu fiz o que ela não queria.

Os carros passavam, o falatório ia e vinha, assim como as bundas da esquina da Alameda Santos com a Rua da Consolação e eu pensava nas palavras da Mariana.
Ela se dava um valor incrível, valorizava seus feitos e cada palavra dita por si mesma ali na mesa. De fato, não seria qualquer uma daquelas bundas que teria tamanha habilidade em defender seu ponto de vista em meio a 6 homens bebendo e comendo provolone à milanesa. Mas eu vi! Eu vi o que ela estava fazendo! Eu a conhecia de outras botecagens, eu lembro de quando a conheci, foi igual! E lembro de quando conheci a Carla, a Jéssica, a Paula… Lembro! Os assuntos eram os mesmos e o jeans também.

Oras…. o que a Mariana, a Carla, a Jéssica, e Paula e todas as outras Marias Artistas faziam, era realçar, pôr em destaque discursando ao vento, o que elas julgavam ter de melhor: Seus cérebros. Estava calor mesmo e aí passou aquela loira de sempre, pra quem um dia bêbado eu dei um chocolate e um guardanapo com uma citação ao Dostoiévski. Ela estava com um micro-shorts e ela sabia que eu era louco por ela. Ela também sabia que ela tinha uma bunda fenomenal.
“Mariana, seu cérebro é uma bunda e a sua boca é um shortinho”.

Foi o que bastou para eu levar um banho de cerveja e os colegas rirem escandalosamente.
Mas ali ficou claro em meio a gaiatices mil, que não só nos 75% de água mas também nos 25% de massa cinzenta e no jeans, todo mundo é igual.

Bilhete Único.

Em uma segunda feira, as 7 da manhã em uma metrópole, a vida não é fácil se você é usuário do transporte público. Ônibus lotado, metrô lotado, calor humano em excesso, atentados de gás butano sem autoria assumida, trânsito e balanço de navio são algumas das coisas que contribuem para afastamentos por stress e cânceres futuros na vida do trabalhador paulistano. Mas nas manhãs de Davi, nem tudo era drama.

Já há semanas ele havia reparado em uma moça metida em trajes executivos, óculos de armação fina e uma pastinha de quem após o expediente vai direto estudar. Aparenta ter a mesma idade que ele, e apesar do olhar assustado, defende-se das encoxadas dos passageiros mais saidinhos com certa doçura. Já tem alguns dias que Davi pensa em perguntar-lhe seu nome, tem a impressão de que ela responderá sorrindo, porém o medo de estragar toda a projeção de mulher dos seus sonhos o impede de caçar assunto.

Sempre que vaga um assento, Davi cede o lugar à ela, que apenas agradece com um meneio de cabeça e senta. Parado na frente dela e em pé, Davi pensa que poderia viajar até São José do Rio Preto naquela posição e não se cansaria. Foi assim que, espiando sua leitura, descobriu tudo que sabe sobre a moça: Ela estuda administração em uma Universidade na região da Mooca.

Os olhares de Davi não incomodam a moça. Obviamente ela os percebe, e toda vez que isso acontece, ela ajeita melhor o cabelo e finge não estar prestando atenção. Existe encanto no olhar de Davi, e nenhuma malícia. Não é para os seios ou para o quadril que ele olha e sim para os olhos, coisa mais linda que aquela moça tem. “Tem que ser muito bonita mesmo, pra estar assim em plena segunda feira às 7 da manhã”, pensa ele.

Chega o ônibus ao destino de Davi, é hora de descer e encarar o dia de frente. Ele deixa o “Mercedão”, caminha lentamente até a estação do metrô, sente pena dos que ficaram para trás e dos que ele ainda vai encontrar no vagão; São pouquíssimos os corações que palpitam nesse horário, aqui nessa cidade.

Samba da Destrambelhada

Sem métrica, sem melodia
A poesia avacalhada
Meu coração é quem canta
Um samba pra essa destrambelhada

Mesmo me tirando a sanidade
Ela me traz felicidade
Com ela o amor não tem carta marcada
por isso chamo um samba pra essa destrambelhada

Com ela esqueço até quem eu sou
Viro sambista e largo o rock n’ roll
Se ela me pede, eu não digo não
Troco na hora a guitarra por pandeiro na mão

E se eu te propor, você deixa?
Eu te cuidar com amor e com cerveja
E se eu não desistir, você fica até de manhã?

Quero acordar do teu lado, despenteado e debruçado
Em cima dessas suas costelas de edifício Copan (2x)

E se eu te fizer chorar, juro que vai ser de rir
Eu sei, teu riso é fácil, então fica fácil conseguir
Vou dizer que te amo todo dia
Nem que for com um samba desses, sem melodia

E se eu te machucar, me manda pastar
Faz greve de amor e me proíbe de bar
Faz tempo que eu te quero, mas sei que a vida é lerda
Oi, foi do coração que veio esse sambinha de merda

Com ela esqueço até quem eu sou
Viro sambista e largo o rock n’ roll
Se ela me pede, eu não digo não
Troco na hora a guitarra por pandeiro na mão

E se eu te propor, você deixa?
Eu te cuidar com amor e com cerveja
E se eu não desistir, você fica até de manhã?

Quero acordar do teu lado, despenteado e debruçado
Em cima dessas suas costelas de edifício Copan (2x)

Cidadela

Perdi o caminho de casa. Penso naquele lugar todos os dias, todas as noites, até mesmo no inconsciente do meu sono, anseio por um dia poder voltar. Mas eu perdi o caminho. Não sei como cheguei até aqui, e não tenho ideia do lado pelo qual devo seguir, para voltar ao meu lar.

Engraçado pensar que, quando lá eu estava, cheguei a amaldiçoar o lugar, desvalorizar aquele ambiente… Eu estava tão confortável, que cheguei a me entediar. Me sentia tão perdido quanto me sinto hoje, pois também não sabia pra onde ir, só que ali era o meu domínio, e ali eu me dominava. E daí que vieram diferentes andanças da vida, e de longe avistei uma estrada florida, esverdeada, que cheirava bem e reluzia no meio de vários outros caminhos menos interessantes. No ímpeto da aventura, na sede pelo novo, sem bagagem nem documento, passei a caminhar. No início, eram flores, pássaros, brisa leve e um silêncio musical. Desacelerei o passo, apreciei cada centímetro do caminho, e não olhei mais pra trás.

Após andar algumas léguas que me dei conta do quão distante de casa eu já estava e de que me faltavam recursos, e a minha identidade. Foi a única vez em que titubeei. Eu já não tinha o conforto do lar, mas o desconhecido no final da estrada me agradava mais, e a falta de identidade pouco me importava, pois quando eu chegasse à esse novo lugar, eu poderia ser quem eu quisesse, então segui viagem.

Andando devagar, apreciando noites e dias de encanto, o riso vinha fácil como o fôlego que me sustentava. Tempos depois, o caminho deu em um lugar ainda mais bonito e acolhedor. Logo que cheguei à entrada da cidadela, fui recebido com afagos e festejos, fui vestido, banhado e alimentado. Celebraram-me por 7 dias, e eu já não sabia mais como que eu fui perder tanto tempo no lugar de onde eu saí. Aquilo sim era vida. Então passaram-se semanas, e depois meses, e aquilo tudo acabou por tornar-se completamente normal para mim. Esqueci do quão ruim era o meu lugar, e eu sequer me lembrava de que eu havia vindo de algum outro lugar.

No meu novo habitat, fui recebido e tratado como rei, e então sem notar, me apossei da coroa, e o poder tomou conta de mim. Desprezei quem me acolheu, cuspi no chão onde me estenderam um tapete novo, deitei numa rede que não era a minha, levantei a mão para quem me acarinhou, cerrei os punhos e franzi a testa para quem só me sorria.

E aí o que era belo e libertador, tornou-se então cinza e angustiante. Eles, que me deram todas as honrarias quando cheguei, foram tomados primeiro por uma tristeza sem fim, e depois, em seus corações já inflamados, por vingança e amargura.

Cansados da minha cegueira e da minha tirania, quiseram me pôr pra fora da cidadela, mas não faziam ideia de onde eu tinha vindo, e jamais acreditaram no meu esquecimento. Então se revoltaram, me pegaram pelos braços e pernas e me arrastaram pelas ruas de terra. Passaram a me açoitar, dia após dia, noite após noite. Negaram me a comida, e debochavam da minha fraqueza. Cortaram-me os cabelos, rasgaram-me as vestes e atiraram pedras em mim. Nada havia sobrado daquele primeiro amor naqueles corações feridos. Me viam como monstro, e em monstro se transformaram, para me fazer partir.

Eu quis me desculpar, eu quis me redimir, eu quis recomeçar, mas aquele povo era orgulhoso, e apesar do início terno, carregavam uma soberba cruel em seus corações. Jamais me perdoariam por macular o seu chão, e mesmo que se enternecessem por algumas vezes, e quisessem em seu íntimo me perdoar, a mágoa era maior. Amaram-me com toda a verdade, receberam-me sem defesa, e pagaram um preço. Não me vitimizei, e passei tempos aceitando toda a sorte de castigos, na esperança de que um dia me perdoassem e então eu pudesse recomeçar naquele mesmo lugar o meu reinado, e amar a toda aquela gente de toda a minha alma. Queria cuidar de cada um dos filhos daquela terra.

O relógio deu sete mil voltas, e nada mudou. Na terra do amor incandescente, havia de tudo, menos perdão. Me puniram tanto, e me culpei tanto, que já não poderiam me amar novamente. E como haveriam de me amar novamente, se nem mesmo eu me amava mais?
Então, de vestes rasgadas, cabelos desalinhados, com cara e cheiro de abandono, passei a perambular naquele lugar. Lembrei-me do meu lar. Do quão senhor de mim eu era quando lá habitava. Lembrei-me do quão bom e suave, era reinar a mim mesmo e para mim mesmo. Mas eu não sabia voltar…

E riam de mim pelas ruas. Encontraram um novo rei, e depois outro, e depois outro, e depois outro… Mas de todos os reis depostos, o único a ser rebaixado a bobo, fui eu. Tomado de desespero e já sem forças, me pus a correr. Corri, corri, corri, sem ideia de onde chegaria. Fui longe, muito longe, e passei semanas longe de toda a humilhação diante daquela gente. Me recompus, adquiri certo ânimo, e voltei a caminhar. Quando dei por mim, estava lá de novo. Era em círculos que eu andava, e só me cansei, sem sair do lugar.

De aparência melhor, fui menos hostilizado. Me deixaram ficar, mas ao invés do perdão, me deram cinismo, e uma grande dose de desconfiança. E eu já não podia mais viver assim… Já havia quitado meus débitos com aquela gente! Mas nunca soube do que eram capazes os corações feridos.

Então a qualquer custo, resolvi voltar. Rezei a todos os orixás, e fiz todas as promessas, pra que eu encontrasse o meu caminho de volta pra casa. E a resposta do céu não veio. O perdão não veio. O alívio não veio. A culpa não se foi. A mágoa não se foi.
Rodo, rodo e não saio do lugar.
Eu sinto falta do meu lar, pois era só lá, cidadela, que eu sabia não te amar.