Em semana de São Paulo Fashion Week, não se fala de outra coisa. Uma coisa mais bizarra que a outra, e existem todos os tipo de teorias e referências a se fazer em cima daquelas pavoneações em tecido. Andei reparando que o mundo da moda, e a inteligência humana, têm muito em comum, assim como o baianês e o espanhol.
A inteligência é a grife mais pirateada no mercado. Quem muito estudou, apega-se apenas a isso e julga-se mais inteligente que a maioria, engana a si próprio. Assim como aquela moça que embarcou no Terminal Pirituba, com aquela camisetinha básica da “Dulce Cabana”, e olha com desdém para a moça do banco de trás, que traja uma humilde malha de promoção da Pelicano.
O produto original é caro, bem confeccionado, exige material de primeira qualidade, e trabalho quase que escravo de quem o produz. Existem os que até possuem o produto original, mas o utilizam por ostentação, e não por bom gosto ou senso de auto-crítica, e aí entramos em um exemplo da relativização da burrice.
Nada mais triste do que ver alguém com potencial, com postura, com ideais admiráveis, abusar tanto da massa cinzenta, até quando a massa necessária é aquela vermelha, ensanguentada e pulsante, que desgasta a peça mais preciosa do guarda-roupa da vida. Quem ostenta, abusa, e quem abusa, estraga. É como aquela auxiliar administrativa, que com seu salário de oitocentos reais, comprou aquela bolsa Louis Vitton linda, no crediário, passou fome o resto do mês e usou a mesma bolsa o resto do ano, todo santo dia. No ano seguinte, teve de passar fome por mais um mês, pra andar na estica por uns 4 ou 5 meses, e com um bagaço no restante do tempo.
Ser burro vicia, assim como usar a melhor roupa. Eis então o núcleo da segmentação da burrice: Os burros de berço, e os burros por vício. Os burros de berço são pessoas as vezes desfavorecidas, mas também muito desatentas. Quem vive em sociedade, não tem desculpa pra ser burro, nem mesmo por desfavorecimento social, uma vez que como já mencionado, inteligência nada tem a ver com estudo, ou status. Quem observa, olha em volta e pratica o princípio da empatia, é um ser de inteligência elevada.
O burro por vício, é o pior de todos, pois tem consciência de tudo o que já foi dito, julga-se inteligente, aprecia boa leitura, boa música, cinema alternativo (não uso a palavra “cult” em textos sérios), é politizado, mas se repete. Se repete, e se gasta, até que fica burro. E quando fica burro, esquece o princípio da empatia, que no passado ele até ensinou mundo afora. Para de prestar atenção, de olhar em volta, trai a si mesmo, e acaba virando uma caricatura do que ele mesmo já foi, quando começou a perceber a vida. Formula suas próprias teorias para justificar suas próprias idiotices, e maquia toda a sua mediocridade com um discurso rebuscado, e ar de deboche. É figura socialmente agradável quando quer, e ideal para relações superficiais, coisa na qual ele também acaba por se viciar.
Tudo por causa da repetição. O burro por vício, é o ex-inteligente.
O burro viciado, é o inteligente deteriorado.
Igualzinho aquele sapato Prada, já gasto e sem solado.