Caído na Perdição.

O Amor ao Próximo.

Novembro 20, 2009 · 1 Comentário

Devo te fazer uma confissão. Nunca consegui entender como se pode amar o próximo. A meu ver, é justamente o próximo que não se pode amar, só os distantes é possível amar. Certa vez, li em algum lugar a respeito de “São Julião Hospitaleiro”; certa vez um andante faminto e gelado entrou em sua casa e lhe pediu que o aquecesse; Julião se deitou com ele na cama, o abraçou e começou a lhe soprar seu hálito na boca purulenta e fétida, resultado de uma doença terrível. Estou convencido de que ele fez isso num assomo de falsidade, levado por um amor ditado pelo dever, movido pela epitimia que ele chamara a si. Para amar uma pessoa é preciso que esta esteja escondida, porque mal ela mostra o rosto o amor acaba.

A questão é saber se isso se deve às más qualidades das pessoas ou porque essa é a sua natureza. A meu ver, o amor de Cristo pelos homens é, em seu gênero, um milagre impossível na Terra. É verdade que ele foi um Deus. Mas nós não somos deuses. Suponhamos, por exemplo, que eu possa sofrer profundamente, mas outro nunca poderá saber até que ponto eu sofro porque ele é outro e não eu; além disso, raramente o homem aceita reconhecer o outro como sofredor (como se isso fosse um título). Por que não aceita, o que tu achas? Porque, por exemplo, eu cheiro mal, tenho cara de tolo, porque uma vez lhe pisei o pé. Além disso, há sofrimentos e sofrimentos: meu benfeitor ainda admite em mim um sofrimento humilhante que me humilha, a fome, por exemplo, mas se for um sofrimento um pouquinho mais elevado, em nome de uma idéia, por exemplo, esse não, esse ele só admite em casos raros, porque olha para mim e de repente percebe que eu não tenho aquela cara que, segundo sua fantasia, deveria ter o homem que sofre, por exemplo, em nome dessa idéia. E então ele me priva de seus favores, e isso sem nenhuma crueldade.

Os pedintes, sobretudo os pedintes nobres, nunca deveriam aparecer, deveriam, sim, pedir esmola pelos jornais. Ainda se pode amar o próximo de forma abstrata e às vezes até de longe, mas de perto quase nunca. Se tudo acontecesse como no palco, num balé, onde os pedintes, quando aparecem, estão vestidos em andrajos de seda e rendas rasgadas e pedem esmola dançando graciosamente, bem, neste caso ainda se poderia admirá-los. Admirá-los, mas, não obstante, sem amá-los.
Todavia, chega desse assunto.

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Ode ao Elogio.

Outubro 23, 2009 · 8 Comentários

Numa dessas tardes monótonas de dia de semana, me meti a uma experiência antropológica virtual. Me peguei pensando em quão comum são os elogios que fazemos uns aos outros. “Você é bom”. “Você é linda”. “Você é inteligente”. Toda e qualquer coisa diferente disso é apenas uma variação disso, talvez com mais riqueza lírica, ou com nada mais do que rodeios. Acabei percebendo que até mesmo a mais cruel ofensa, se olhada da maneira certa, pode ser considerada como um belíssimo elogio, ou o reconhecimento de algo de extremo valor.
Se te chamam de “filho da puta”, pode-se interpretar como um louvor ao esforço da sua mãe em prover sustento a você, sem medir consequência, despindo-se de toda a moralidade que lhe foi ou não ensinada.
Se te chamam de “cuzão”, nada mais pode ser do que uma expressão um tanto grosseira, mas de reconhecimento de uma grandeza que tens: A grandeza anal. Afinal, porque “cuzão” há de ser ofensa, e “pintão” elogio? É tudo grandeza! E esses são apenas os exemplos mais óbvios.

Pois bem. Resolvi escolher a moça mais espirituosa da minha lista no MSN, para dizer-lhe palavras elogiosas, mas com sentido depreciativo, se visto de maneira rasa. E o resultado foi surpreendente. Obviamente ela não entendeu a coisa da maneira como eu gostaria, mas ao explica-la o processo, desenvolveu-se toda a tese mencionada acima.
Achei um gancho interessante: a foto de exibição dela. Disse que naquela foto, ela estava parecida com um zagueiro do Bangu. A reação foi despeitada, ela sugeriu que eu a excluísse, pois se não era do meu agrado, eu não deveria me obrigar a ver. Justo, porém equivocado. Expliquei a ela que todas as pessoas que habitam debaixo do sol, reclamam da falta de originalidade, da mesmice e da mediocridade, seja lá em qual forma ou segmento. Disse que se eu apenas dissesse um vago “eu te amo” a ela, estaria sendo simplório demais e igual a todos os outros.

Quando a comparei a um zagueiro do Bangu, eu estava apenas dando um passo além. E lamentei a falta de compreensão do fundamento. Ela seguiu despeitada, como se eu estivesse fazendo troça de sua figura. Então me pus a explicar que, ao compara-la com um zagueiro do Bangu, eu estava rasgando o protocolo, desmistificando toda a construção de figura frágil que foi imposta às mulheres desde os primórdios. Era um prêmio, um troféu pela conquista feminina, batalhada há muitas décadas, pela igualdade em relação aos homens perante a sociedade. Como durante essa luta toda pela igualdade muitas mulheres acabaram por se masculinizar, então o miolo de zaga do Bangu acabava por ser uma forte alegoria para esse quadro.
Hoje ela poderia encarar de frente um atacante de um Flamengo da vida, e ainda assim ser desejada e cortejada por qualquer homem de bem, e de mal também.

E porque zagueiro do Bangu e não do Bragantino? Porque o futebol carioca simboliza a bagunça que é o mundo pós-moderno. Isso tudo é muito mais denso e até mesmo mais valoroso do que um simples “eu te amo”.

Tudo que é original, a primeira vista é interpretado como complexo. Mas após digerir todo esse conteúdo elogioso e rebuscado (foi assim mesmo que eu expus a questão a ela), é certo que ela se sentirá mais valorizada do que se sentiram as musas de Chico Buarque. Então você meu camarada, quando se deparar com uma donzela que o encanta, não diga a ela “eu te amo”, “você é linda” e nem mesmo diga “você é brilhante”. Compare-a com o craque do campeonato carioca. Daqui muito tempo, ela há de lhe amar assim em retorno.

E são momentos como esse que valem mais do que mil notas de dólar.

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Desencontro

Outubro 20, 2009 · 3 Comentários

A modernidade é mesmo uma benção. Graças aos avanços tecnológicos, é possível saber de tudo, até mesmo da vida alheia, sem sair do lugar. Sempre tive na cabeça, que pra escrever aqui, eu teria que ter saído, visto gente e vivido situações inusitadas. Nada disso. Basta abrir a orelha, e lá vem razão pra divagação.
Através desse canal, nos últimos dias recebi diversos tipos de relatos. Desde os alegres e efusivos, de gente em boa fase, até rios de lágrimas em pixels e caractéres, de gente em maus lençóis. Esses são maioria, obviamente. Talvez porque seja tendência reclamar da vida, talvez porque a coisa tá feia mesmo ou até mesmo porque talvez ser meu amigo dê azar.
Segundo os números que reuni de toda essa leva de histórias macambúzias, 91,7% das lamúrias, são lamúrias de amor. E aí na contramão disso tudo, o instituto Data-Dan constatou que 93,2% das pessoas que me cercam, se dizem desencanados de amar, bêbados libertinos, adeptos da pegação e hedonistas convictos, mesmo sem saberem o que a palavra significa.

Por que?!

Porque hoje em dia sentir, é o maior dos “guilty pleasures”. Se o cidadão sente, ele sente tanta, mas tanta vergonha de tal coisa que acaba por suprimir a flor roxa que nasce no coração dos trouxas, de modo que fica impossível se entregar. E atenção: ESSE NÃO É UM BLOG SEXISTA. Portanto não se ria minha senhora, pois você também está na estatística.
A micro-diferença de 1,5% de pessoas desencanadas de amar e hedonistas por convicção, é composta de gente que cansou da mediocridade existente por aí. Mas não entrarei nesse mérito hoje.

O ponto é que virou coisa feia o cara que escreve uma carta, derramando-se à sua amada. É motivo de gozação a exposição pública do que se sente. Se for ver, a gente é condicionado a isso, sabe-se lá porque. Nos tempos de escolinha, quando se gosta daquela lorinha da lancheira rosa, não se admite de jeito nenhum. E se os coleguinhas percebem o flerte, logo fazem troça e põem o ferinha apaixonado a chorar, traumatizando-o e condicionando-o a achar besteira cortejar uma moça.
A vergonha é tanta hoje em dia, que até mesmo as moças antes ávidas por cumplicidade, companheirismo, paixão e afeto entraram na dança do auto-boicote. Muitas incorporam o que há de mais idiota nos homens: A ostentação. Ser pegadora é legal. E mal elas sabem, que para os pegadores, reina a incoerência, visto que uma pegadora é sempre broxante, pois o gostoso mesmo, além de malhar e acelerar, é o desafio.

No meio dos meus números fictícios existem também os perdidos no meio dessa tormenta. Gente que já sonhou, que já sentiu, e que de tanto levar pancada, vive colocando a pontinha do pé na lagoa dos acovardados. Esses são os piores de se lidar, pois quando são maltratados, relegados a um segundo plano ou rejeitados de uma vez, se sentem enganados, revoltam-se contra a crueldade alheia e etecetera. Quando são cortejados, exaltados, louvados e recebem aquela atenção especial de garçom após gorjeta boa, se sentem acuados, reclamam da falta de espaço e se assustam, não importa qual a medida do bem-querer. São os reis do desencontro.

Ao fim das contas, pode-se jogar toda a culpa disso em cima da modernidade. Isso tudo aí é via de regra, basta saber quem tem coragem de vestir uma dessas carapuças…

Eu não tenho.

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Questão de Cor.

Setembro 26, 2009 · 7 Comentários

Época de desemprego é sempre difícil. Falta o dinheiro para o social (mesmo que eu esteja mamando na teta da previdência até janeiro próximo, falta), faltam motivos pra sair de casa (o que em muitos dias acaba sendo bom), e o principal, falta ocupação. Eu como bom ariano, entedio-me facilmente das coisas, e até mesmo das pessoas, então pra mim, estar desempregado é duplamente difícil.

Pois bem. Em tempos como esse, a gente se apega às tão superestimadas “coisas simples da vida”. Sem querer menosprezá-las, mas é só o que sobra pra fazer mesmo. Minha vida social é constituída de um núcleo bastate firme e longevo, do qual fazem parte os irmãos Silvestrini, Diego e Pedro, que são meus amigos de infância, e também o já citado em algum texto passado João Paulo, ou Rodka, ou Parfen, ou simplesmente Cabelera. O que difere as nossas atividades “coisas simples da vida” das atividades extravagantes, é o poder aquisitivo, que no nosso caso tem uma dinâmica muito grande, acima do normal. Como somos todos grandes “bon vivants”, temos um momento extravagante por mês, com muita junkie food, bebida alcoólica e risos da vida alheia, e 29 dias de “coisas simples da vida”. Acaba sendo obrigação apreciar esse tipo de coisa, afinal. Ou isso, ou o suicídio.

Neste hiato de pouco mais de um mês sem abastecer esse espaço pouco visitado de palavras soltas, não houve sequer um dia de extravagância social. Cada um resolveu investir seu rico dinheirinho em algum outro tipo de prazer, ou desprazer. Então os dias e noites deste que vos escreve, foram bastante tortuosos. Já ouvi falar por muitas vezes de um tal de “ócio criativo”, então resolvi fazer uso dele. Reestruturei toda a parte de conteúdo na internet da minha querida banda, editei fotos, criei canais de comunicação… Foi uma festa! E encerradas essas tividades, nada, absolutamente nada me restou para fazer, a não ser ficar na internet me informando sobre o mundo e assistir a novelinha rural das seis. Cheguei a ficar 3 dias sem pisar na rua, o que já estava me deixando louco. Então na última madrugada, ao desabafar todo esse sofrer com meu nobre amigo Diego Silvestrini, chegamos a conclusão de que deveríamos sair, mesmo que de bolsos vazios, e colocar na “pindura” a conta da noite.

Como de costume, fomos até a padaria 24 horas do bairro, um tremendo progresso que melhorou as nossas inúmeras madrugadas de insônia. Pedimos o já tradicional X-Bacon Salada e uma Coca-Cola para cada um. Bebemos a Coca em suaves prestações, pra fazer o momento durar, e devoramos o lanche em menos de 5 minutos, pra fazer o estômago calar. Passava de uma da manhã, e depois de vermos o número musical do dia no programa do Jô, que era uma mulher com um vestido gótico idiota, começou o Intercine. “Adoradores do Demônio” era o título da película. Entre conversas sobre a indústria musical, sobre o passado feliz e distante, e sobre os planos ousados para o futuro, sempre dávamos uma espiada no filme, que se olhado da maneira correta, era muito engraçado.

Eis que em uma das pausas na conversa, resolvemos prestar atenção na seguinte cena: Um gordinho branco, típico americano, abre a porta de um quarto e lá dentro há um casal transando. Um negão, jogador de basquete style, mandando ver na loirinha. O gordinho se injuriou do nada e deu uns 5 tiros no casal. Trocaram a cena, entrou o protagonista no quarto e encontrou aquele cenário bonito, composto do casal pelado e ensanguentado e o gordinho sentado na cadeira da escrivaninha, morto e com um espetinho de churrasco atravessando-lhe a cabeça, orelha a orelha. Demos risada e então começamos a puxar pela memória todos os filmes do Intercine que vimos na mesma situação: Comendo X-Bacon Salada e tomando Coca a prestação.

E daí veio a constatação! Era o terceiro filme, TERCEIRO FILME, em que um negão transando era assassinado a sangue frio. O primeiro deles, um filme do qual não me lembro o nome, mas que logo no começo, um negão que dava uma no chuveiro foi morto na faca, por um Ninja também negão. O segundo deles, tinha um negão dando uma no mato, quando uma mulher aparentemente enciumada (a gente não ouve o áudio das TVs da padaria) o executou com uma pedra enorme na cabeça. E o terceiro foi esse, que morreu pelas mãos do adorador do demônio, na bala.

Daí nasceu a interminável discussão: Se a arte imita a vida, será comum que afroascendentes do sexo masculino sejam mortos enquanto transam? Seriam os diretores americanos de filmes-B, associados ao Klu-Klux-Klan? Seria o selecionador de filmes da Rede Globo, contrário à procriação da raça negra? Seria isso fruto de uma tremenda falta de criatividade em Hollywood? O que vocês acham?!

Eu acho que não chegaremos a lugar algum.

É claro que não! Que diabos de dúvida é essa?! Mas também….que diabos de tendência assassina é essa?!

Acho que o desemprego começa a me afetar de forma mais séria.

Vou ali assassinar algum negro sexualmente ativo e já volto…

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Aviãozinho

Agosto 29, 2009 · 6 Comentários

Sentado na beira da cama,

pelado e de havaiana,

ele vira e reclama da ligação a cobrar.

São três da tarde,

e ele que não gosta de alarde,

abandona a namorada,

quando até a madrugada fica a trabalhar.

Quem liga é um funcionário,

que ele acha que pensa que ele é otário,

pedindo dispensa e deixando assim,

uma falta imensa que faz o chefe se preocupar.

Ele não é otário,

é só um aeroportuário com um trabalho sem fim,

de sentar-se todo dia e abrir o sistema,

na cadeira do check-in.

Tem estado abatido,

ninguém tem entendido

a mudança no seu jeito de ser.

A fofoca corre, deixa ele fudido,

pois naquele dia ao funcionário mais gozado,

haviam contado que ele estava a nove meses sem comparecer.

A dias consternado,

poucos sabiam que ele havia sido abandonado,

por não conseguir fazer o seu aviãozinho arremeter.

Culpa do trabalho escravo,

de salário mal pago,

que o faz adoerecer.

Ao fim do esforço, com dores no dorso,

Só vai ganhar um aplauso, nada no bolso,

e vai dormir feliz, por ter feito por merecer.

A namorada abandonada,

que não é boba nem nada, aproveitará a madrugada com algum camarada,

até a menstruação não mais descer.

E o aeroportuário,

finalmente feito de otário, realmente,

terá pela frente um bastardinho pra ver crescer.

Trabalha, trabalha, trabalha,

Broxa, broxa, broxa,

cabrocha, cabrocha, cabrocha,

canalha, canalha, canalha.

Se liga na falha,

acende tua tocha,

que esse teu emprego só te faz é perder…

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Insistência

Agosto 12, 2009 · 2 Comentários

Ari era feliz, pois não sabia que era traído.

Josiel era triste, pois descobriu a cornitude.

Marta era feliz, pois não conhecia a miséria.

Deolinda era triste, pois vivia na merda.

“Seo” Arnapio era feliz, pois não sabia que sua estimada filha caçula era puta. Puta de rua mesmo.

“Seo” Hideaki era triste, pois havia flagrado sua filha única trabalhando na zona a qual ele mesmo frequentava.

Dona Arminda era feliz, pois não sabia que seu rebento cheirava e vendia na vila.

Dona Rosa era triste, pois achou um saquinho de “bicarbonato” no bolso do seu menino de ouro.

Valores a parte, afinal nem toda alegria citada seria alegria pra todo mundo, tampouco as tristezas, o filósofo Gegê acordou domingo cedo pensando nisso. Nas mazelas da vila. Ele era dono do boteco do bairro, então acabava sabendo de tudo. Aliás, ele mesmo deu com a língua nos dentes pro amigo Josiel, que só bebia Cynar, o drink do corintiano.

Tendo ciência de todo o quadro estabelecido entre as famílias que ao passar na frente do seu bar, lhe davam bom dia diariamente, Gegê, que era mesmo formado em filosofia, enxergava tudo aquilo com extrema melancolia. Não sabia o que era pior: a situação de quem nada sabia, ou a de quem tudo sabia. Apronfundou-se em pensamentos dessa natureza enquanto rolava no seu recém comprado plasma, o dvd novo do Exaltasamba.

“Na medida em que somos conscientes dos problemas que nos cercam, tornamo-nos infelizes com tais situações. É como se o fantasma que a gente acredita que exista desse as caras e soltasse um sonoro “búúúú”. Que diacho. Seria melhor então eu não ter estudado, não ter criado consciência, ter sido indiferente à realidade e ter ficado em paz vendendo cerveja, cachaça e torresmo? A cada bêbado com problema que encosta no meu balcão, choramingando, eu me conscientizo mais. Tenho mais exemplos de mazela. A criançada que joga bola aqui na porta é toda feliz… mas porque? Porque eles são inocentes, não conhecem as caganças do bairro, muito menos as da vida. Tá certo que filho do “seo” Pedro é um moleque pra baixo, mas ele conhece o desamor da mãe, a violência do pai (filho da puta ao qual me recuso a vender cachaça). Tá aí. Melhor é não saber. “Sifudê” viu…”

Ao fundo o bar preenchido apenas pelo som vindo da Tv: “Lêê…lê lê lê, lê lê lê lêêê…”

Chegando em casa, Gegê olhou entristecido para sua prateleira de mil livros, e resolveu queima-los todos. Queimaria também o dvd do Exaltasamba, do qual ele havia enjoado. No meio do seu surto de fúria, jogando tudo no chão, berrando e chorando, nosso velho filósofo sentou-se cansado, descabelando-se. Caiu do topo da prateleira um livro de Lacan, e ele começou a folhear. Passaram-se horas e ali ele foi se redescobrindo. Já tinha lido aquilo e muito mais, mas sob outra perspectiva. Além do que, o bar aonde ele bebia quando matava aula, acabou por tornar-se seu.  Então o leitor imagina…

Após a leitura, Gegê deitou sem queimar nada. Quem queimava algo, era o filho da Dona Arminda, em cima do telhado. Então Gegê pensou que a ignorância de nada servia também. Por mais tortuosa que fosse a verdade, era dela que vinha todo o crescimento. Que a evolução, que a única maneira de se domar os inevitáveis fantasmas da vida, era insistir neles. Insistir na consciência, a mais cruel verdade, o mais terrível fato. Insistir e insistir até que ele se torne totalmente absorvível. Esse era o lance novo do dono do boteco. Gegê roncava como um porco minutos depois de toda a conclusão.

Ao acordar depois do horário normal, levantou correndo, cheio de vitalidade e correu pro bar. Levantou a porta de ferro, passou aquele pano encardido no balcão, e esperou ansioso pelo primeiro cliente problemático, afim de cachaça e conselhos.

Gegê se sentiu além de filósofo diplomado, um psicanalista. Um autêntico dono de boteco.

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Kind Of Beauty

Julho 29, 2009 · 5 Comentários

Mês de julho é o mês dos passeios semanais, das casas cheias em qualquer dia, de reencontro com aqueles batalhadores amigos que estudam e trabalham, em busca daquela sonhada carreira acadêmica que os respectivos pais sonharam desde o dia em que ouviram o primeiro chorinho rasgado, que lavaram pela primeira vez a pingolinha ou a periquita de sua cria. Época essa em que o RPM era sucesso e em que nem passava pela cabeça do cabeça da casa o tamanho da sordidez dos atos de seu recém fabricado, vinte e quatro, vinte e cinco anos à frente.

Fruto de um amor que talvez nem exista mais ou fruto de uma foda avulsa em baile de carnaval, não se imaginava também que aquela carinha de joelho poderia tomar tais formas atraentes. Que aqueles ombrinhos frágeis se alargariam de forma a formar a mais bela das saboneteiras. Que aqueles olhinhos apertados de tanto chorar teriam a mipoía que definiria a personalidade daquele rosto em óculos de armação fina. Que a esperneação por um peito cheio de leite evoluiria até um remelexo perturbador por um olhar. Que naquela cabecinha pelada haveria um corte da moda, que chacoalharia no compasso da banda, fazendo balançar também os joelhos e o coração de qualquer um que desse a devida atenção.

Ao me levantar, já sabia que esse não seria mais um dia ordinário. Após sonhar com os números da mega-sena, me estiquei olhando pra cima até me acostumar com a idéia de ainda ser pobre, então levantei-me, liguei o paulo-césar, joguei pra cima o pijama e fui me despertar no chuveiro, já pensando no percurso até o lar de minha paixão futebolística. É terça feira, véspera de rodada, dia de comprar ingresso antecipado. Dia cinza e feio como a maioria dos dias do mês de julho, aquele dos reencontros. Feita toda a rotina, parti para as tarefas do dia: contribuir para a renda dos pobres jogadores que atuam de verde, encontrar gente querida que não via a tempos e ao final de tudo, todos juntos, curtir aquele jazz, sem se preocupar com aborrecimentos.

Deixemos de lado a parte burocrática do dia e concentremo-nos apenas na parte onde a emoção aparece. Ao encontrar-me como peça fundamental de um quebra-cabeça hype, minha mais nova amiga filósofa sorriu, se assentou, tomou café, falou do trajeto e me escutou. Falou, me escutou, falou… Conversa boa, regada à cerveja e bom humor, fora os amendoins com casca de cebola e salsa. Achegou-se um artista pintor, o ambiente enriqueceu-se. Toda sorte de assunto apareceu, e nisso algumas horas se passaram. E aí o leitor pensa: “Mas onde diabos está a originalidade desse dia miserável? Eu também tenho amigos! Eu também rio, filosófo! Também bebo café! Eu também sou hype!”.

O já estabelecido e sagrado cool jazz de toda terça do mês de julho teria hoje a casquinha de cebola e salsa que havia faltado nas outras terças. Amendoim é bom, ainda mais com cerveja gelada, porém a casquinha de cebola e salsa dá o toque de originalidade à botecagem e a esse dia. Começa o som, uma introdução psicodélica que acabou desaguando em “All Blues”, do celebrante de bodas de ouro “Kind of Blue”, pra quem não sabe, clássico definitivo de Miles Davis. Tamanha a destreza da banda, pensei ser impossível desviar-se da apresentação. Nem mesmo a mais irritante mente com a mais irritante voz me faria reviver a tristeza e revolta de duas semanas atrás (leia “Cu Jazz”); Olhando para a minha esquerda, tive instantaneamente a certeza de que estava errado. Lá estava ela. Dançando conforme o balanço da versão funkeada e arrebatadora de “So What?”, a filha daquele pai sonhador, daquele que hoje no alto de sua sabedoria e calvice, se lembra dos tempos em que trocava as fraldas daquela beldade que se despedia umas duas horas mais cedo pra balada em plena terça feira. Aquela que nos pensamentos de seu pai, estudaria nutrição ou psicologia, conheceria um moço bom de família e daria netos aos futuros velhotes lá pelos 25.

Puro devaneio. Agora lá pelos 25, ela fumava, bebia e serpenteava na frente do palco, deixando boquiabertos o artista-pintor e eu. Ela parecia não ligar, nem se dar conta. A reação ao som e a imagem quase me levaram à catarse, que só não foi coletiva por falta de atenção dos demais. Eu que saí de casa cheio de pesar, de dor, de dúvida, de medo, como todo sujeito comum numa cidade grande, a partir daquele instante me via leve como uma pena. A beleza daquela criança imaculada do passado lavava a minha dor como o sangue de Cristo lavou os pecados da terra.

Da série de shows que Júnior Boca & Psicho Jazz apresentou nas terças do mês das férias estudantis, o de hoje foi o melhor. Mesmo com os noves fora, mesmo com apenas a música, os temas de Miles tão bem explorados pelo quarteto no palco. Foi arrebatador.

Mas a casquinha de cebola e salsa foi aquela que perpetuou-se na minha retina. Sem nome, só com formas e displicência. Aquela com encantos com os quais pai nenhum sonhará para sua filha, mas pelos quais qualquer ser vivo na terra há de ser grato ao pai celestial por existirem.

Já dizia o surrado texto de Dostoiévski: “… A beleza é terrível! Terrível” (…) Não posso suportar que um homem de coração superior e poderosa inteligência tenha a Madona por primeiro ideal e Sodoma por último. Ainda mais terrível, porém, é ter já o ideal de Sodoma na alma e não negar o da Madona, sentindo o coração se abrasar, sim, abrasar-se como nos inocentes anos de juventude. Não, o homem é vasto em suas concepções, muito vasto. Eu gostaria de torná-lo mais estreito. Diabo! O que ao cérebero aparece como abjeção é, para o coração, a quinta-essência da beleza. Estará a beleza encarnada em Sodoma? É lá que ela reside para a grande maioria dos homens – conhecias esse mistério? O que mais me apavora é que a beleza não só é terrível, mas também misteriosa. O demônio luta com Deus e o campo de batalha são os corações humanos. Aliás é sempre assim: só fala-se daquilo que nos faz sofrer. Vamos, pois, agora, aos fatos.”

Sim, a beleza é de fato terrível. Ou melhor, terrível é o fato de que eu nunca mais verei tal beleza.

E amanhã de manhã, todo o meu pesar vai estar de volta, com mais força e desesperança. Ao menos que o imponderável aconteça. Ou até o próximo amor de metrô, amor de fila de banco, amor de show de jazz…

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O homem do leite milagroso.

Julho 27, 2009 · 4 Comentários

Era ele o verdadeiro curva de rio. Todos o conheciam assim. No caminho do nobre rapaz, só aparecia móvel descartado, cachorro morto, galho quebrado de ávore velha, pneu careca e afins. Os amigos riam-se dele e ele ria de si mesmo. Mas o riso era amarelo. Por dentro ele se sentia um desafortunado e um injustiçado por Deus. A beleza rondava-lhe bondosamente, mas a pobreza de espírito e a ignomínia acabavam por caracterizar as fêmeas de sua vida como os dejetos acima mencionados. Na mesa de bar, era ele o porta voz das melhores histórias na visão dos gozadores, mas para ele o seu próprio riso era um lamento.

Pensando honestamente ao voltar pra casa após mais uma botecagem dominical, acabou admitindo que se suas histórias fossem as de outro, riria dobrado, riria até a bexiga transbordar. Mas como era ele o centro de toda a urucubaca, sentia-se miserável naquela noite. O papo gozado resultou numa melancolia sem fim. Era só mais uma repetição do mesmo filme de sempre: bela moça, troca de olhares, papo vazio, atração, amasso, álcool, amasso, álcool, carona, álcool, risadas fáceis e falsas, álcool, amasso, mudança de rumo no caminho pra casa, entrada no cinco letras, amasso, transa, álcool, transa, álcool, transa, noite mal dormida, telefone, recepcionista, conta, RG devolvido, silêncio, despedida, metrô, ônibus, casa, solidão. Telefone, papo vazio, atração saciada, desculpa esfarrapada. Telefone, papo vazio, aborrecimento, desculpa esfarrapada. Telefone, papo vazio, irritação, desculpa esfarrapada. Telefone, “rejeitar ligação”.

Resolveu então mudar de vida. Mudar de bar, mudar de amigos, mudar de bairro, de emprego. Tudo o que fosse possível seria mudado. Aquela pasmaceira emocional já o havia cansado, afinal, de que servia ser apenas carne e ossos em busca do prazer? Então ele virou hype, mudou até mesmo o guarda roupa e o perfume. Deu-se com gente inteligente, descolada, politizada. Se sentia um deles, inseria-se perfeitamente naquele universo. Comprou cds de Jazz, roupa xadrex, chapéu. Fez dread lock, depois desistiu. Uma vez com sua identidade capilar recuperada, se encontrou de vez e então se apaixonou. O mais improvável aconteceu: Ele que procurava luz, acabou iluminando-se em trevas.

Ela, velha de guerra nesse mundo letrado e bacanudo, era como ele, porém era macambúzia, atormentada, chegando até a ser intimamente melancólica. Bebia demais, e tinha crises. De choro, de nervos, de intestino, de epilepsia. Assim como o nosso nobre rapaz, uma curva de rio de primeira linha. Se o amor acontecesse, talvez tivéssemos uma competição de retenção de lixo.

Combinaram um cinema inocente, bebericaram chá, usavam cachecóis. Riam e discorriam sobre um documentário a respeito de um músico aí das antigas, e em meio a citações, beijaram-se. Ele ardia em alegria. Ela ardia em esperança. Do chá, passaram ao whisky e do whisky passaram aos lençóis. Era tudo diferente, era tudo como ele havia planejado! Os ventos da mudança finalmente sopravam em sua vida! Toda a medíocridade havia sido deixada para trás e iniciava-se ali uma nova e enriquecedora fase na vida do nobre.

E aconteceu que foi transa, álcool, transa, álcool, transa, noite mal dormida (porque camas de motel são horríveis), telefone, recepcionista, conta, RG devolvido, e ao invés do silêncio, um beijo que ela deu, que beirava o agradecimento. E depois veio o metrô, o ônibus e a espera pelo telefone. Só que o telefone não tocava. Passaram-se horas e depois dias. Depois semanas. Desencanou, caiu no mundo, sentiu aquela velha sensação de infortúnio e por fim riu de si mesmo novamente, como nos tempos medíocres. Tinha que rir, afinal, aquela tinha sido apenas uma noite, a primeira de talvez muitas naquele novo mundo. Ele só não esperava entrar novamente num círculo vicioso.

Conheceu outra desgraçada na vida, que apesar de toda a merda que trazia sob o chapéu e as costelas, era interessante, como a outra que não ligou mais. E a história se repetiu, e se repetiu, e se repetiu. Ele percebeu então que por alguma razão, ele só atraía moças internamente arruinadas. Pensou que uma vez curva de rio, sempre curva de rio. Bebeu, chorou e dormiu.

Nessa noite sonhou que chegava num píer e lá encontrava todas as mal-acabadas que o haviam abandonado, sentadas, bebendo vinho e rindo vivazmente. Beiravam a efusividade. Era um riso de redenção, de gozo, de prazer. Ao se achegar, foi percebido pelas moças. Todas se levantaram e formaram fila. Ele parado e atônito fez um cumprimento e então uma por uma, todas elas o abraçaram com ternura, afeto e gratidão. Sorriram-lhe, beijaram-lhe o rosto e voltaram a se sentar e rir, como se ele não estivesse mais ali. Era um sonho muito real. O despertador tocou, e o dever chamou. Ao levantar-se ele sentiu então que havia curado àquelas mulheres. De alguma forma, ao relacionar-se com elas, acabava por fazer uma limpeza no interior das moças. Imaginou a situação como fenômeno físico e então vislumbrou seu gozo lavando-as por dentro. Achou graça e então alimentou o causo da porra revitalizadora.

Nem se apercebeu de quão ridículo era aquilo, pois ao mesmo tempo em que limpava o interior das perturbadas, sujava-se todo com o lixo delas. Era uma troca injusta que ele não pôde perceber. Então chamando-se de “O homem do leite milagroso”, pois não queria mais ser curva de rio, retrocedeu e caiu no forró.

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Dois e dois não são quatro.

Julho 20, 2009 · Deixe um comentário

Em tempos de perdição moral, espiritual e afetiva, procura-se todo tipo de sinal em todo tipo de veículo. Por vezes é num livro em que se encontra, e foi justamente num desses que me encontrei.

Existem dezenas de obras que esmiuçam a obra de Dostoiévski. Eis o momento em que Dostoiévski me esmiuçou:

“…continuo tranquilamente a discorrer sobre as pessoas de nervos fortes, que não compreendem certa sutileza nos prazeres. Em determinados casos, por exemplo, esses senhores, ainda que se esgoelem à toa, como touros, e ainda que isso, admitamos, lhes dê uma honra muito grande, diante do impossível, como eu já lhe disse, eles imediatamente se conformam. O impossível quer dizer um muro de pedra? Mas que muro de pedra? Bem, naturalmente as leis da natureza, as conclusões das ciências naturais, a matemática. Quando vos demonstram por exemplo, que descendeis do macaco, não adianta fazer careta, tendes que aceitar a coisa como ela é. Se vos demonstram que, em essência, uma gotícula de vossa própria gordura vos deve ser mais cara do que cem mil dos vossos semelhantes, e que neste resultado ficarão abrangidos, por fim, todos os chamados deveres, virtudes e demais tolices e preconceitos, deveis aceitá-lo assim mesmo, nada há a fazer, porque dois e dois são quatro, é matemática. E experimentai retrucar.

“Não é possível”, vão gritar-vos, “não podeis rebelar-vos: isso significa que dois e dois são quatro” A natureza não vos pede licença; ela não tem nada a ver com os vossos desejos nem com o fato de que as suas leis vos agradem ou não. Deveis aceitá-la tal como ela é e, consequentemente, também todos os seus resultados. Um muro é realmente um muro…etc. etc.” Meu Deus, que tenho eu com as leis da natureza e com a aritmética, se, por algum motivo, não me agradam essas leis e o dois e dois são quatro? Está claro que não romperei esse muro com a testa, se realmente não tiver forças para fazê-lo, mas não me conformarei com ele unicamente pelo fato de ter pela frente um muro de pedra e de terem sido insuficientes as minhas forças.

Até parece que semelhante muro de pedra é realmente um tranquilizador e que de fato contém alguma palavra para o mundo, só porque constitui o dois e dois são quatro. Oh, absurdo dos absurdos! Não é o mesmo tudo compreenderdes, tudo aprenderdes, todas as impossibilidades e muros de pedra; não vos conformardes com nenhuma dessas impossibilidades e muros de pedra, se vos repugna a resignação; atingirdes pelo caminho das combinações lógicas inevitáveis as conclusões ignóbeis sobre o tema eterno de que se tem certa culpa mesmo do muro de pedra, embora, mais uma vez, seja bem evidente que não se tem culpa, e, em consequência disto, rangendo os dentes em silêncio e com impotência, imobilizar-vos voluptuosamente em inércia, sonhando que não há contra quem ter rancor; que não se encontra um objeto e que talvez nunca se encontre; que há nisso uma escamoteação, uma fraude, uma trapaça, simplesmente uma repugnante confusão, não se sabe o quê, não se sabe quem, mas que, apesar de todas esas ignorâncias e fraudes, sentis uma dor, e, quanto mais ignorais, tanto mais sentis essa dor!”

Trecho retirado de “Memórias do Subsolo”, F. Dostoiévski.

Ed. 34

Tradução: Boris Schnaidermann, 2000.

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Ensaio sobre a babaquice.

Julho 16, 2009 · Deixe um comentário

Na última madrugada me bateu uma fome espírita, daquelas que vem do nada, após uma “janta” farta, então fui até a uma das maravilhas da metrópole, a padaria 24 horas do bairro, e após pôr um lanchão calórico pra dentro, retornei ao lar. Enquanto vinha andando sozinho pelas ruas, percebi que de barulho só haviam os meus passos e o gerador de eletricidade de uma esquina. Senti uma paz instantânea e pensei em quão bom era caminhar pelas ruas sem nenhum babaca cantando pneu ou gritando na rua sem razão.

Eis que hoje fui realizar as tarefas bancárias do dia e após limpar a minha conta corrente para pagar dívidas bem antigas, retornei pelas mesmas ruas que a umas 16 horas estavam em silêncio e me alimentando de paz, coisa que não me é muito frequente. Ao esperar o trânsito cessar para atravessar uma das ruas, dei um passo em falso e na mesma hora uma caminhonetazinha dobrou a esquina em alta velocidade. Pude ver bem a cara do “piloto”, que estava tendo orgasmos automobilísticos. Deu aquela sacolejada no baúzinho do veículo e jogou o carro pra cima de mim, com o intuito de me assustar e aquilo pareceu o divertir muito. Dei um passo pra trás e senti uma irritaçãozinha momentânea que logo após se tornou reflexão: Como funciona mal um carro nas mãos de um babaca. E pensando, as coisas se aprofundam e aí chegamos em: Como qualquer coisa funciona mal nas mãos de um babaca…

Desse momento até agora, já se passaram umas boas horas e eu sigo com uma dúvida cruel, que chega a me angustiar: São os mesmos os babacas que se divertem jogando carros em cima de pedestres para assusta-los e os que por exemplo, apresentam programas policias na faixa das dezoito horas? Ou haveria no mundo dos babacas, subdivisões que os separam por categoria?

Serão os mesmos babacas que sentem saudades da ditadura, onde a “ordem e a moral eram respeitadas de verdade” e os que param seus carros no posto de gasolina com loja de conveniência, abrem o porta-malas e colocam música ruim “no talo”? Nesse caso, talvez seja mais uma relação babaca-pai, babaca-filho.

Mas se não, de onde então nasce a babaquice?!

Temos também os babacas virtuais. Aqueles que provocam, peitam, e ameaçam sentados na cadeira giratória. E os que fazem citações babacas como “É loucura odiar todas as rosas só porque uma delas te espetou” (sic).

Essa dúvida me atormenta. De verdade. Chego a pensar que talvez o babaca seja eu, por não respeitar o direito de ir e vir e a liberdade alheia. Mas a verdade é que ao menos para mim, muita coisa soa como simples e pura babaquice. E pra muita gente também, eu apostaria uma lata de Brahama.

Então pergunto-lhes: A babaquice realmente existe, ou é mais uma questão a ser relativizada em debate?

E se existe, os babacas são sempre os mesmos? O babaca que é babaca com um carro na mão será também um babaca com uma caneta, com um microfone ou até mesmo com um cachorro na mão?!

Ou será que existem castas no mundo dos babacas?

Alguém me ajuda!

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