Caído na Perdição.

“Chique é ser inteligente”

janeiro 25, 2010 · Deixe um comentário

Em semana de São Paulo Fashion Week, não se fala de outra coisa. Uma coisa mais bizarra que a outra, e existem todos os tipo de teorias e referências a se fazer em cima daquelas pavoneações em tecido. Andei reparando que o mundo da moda, e a inteligência humana, têm muito em comum, assim como o baianês e o espanhol.

A inteligência é a grife mais pirateada no mercado. Quem muito estudou, apega-se apenas a isso e julga-se mais inteligente que a maioria, engana a si próprio. Assim como aquela moça que embarcou no Terminal Pirituba, com aquela camisetinha básica da “Dulce Cabana”, e olha com desdém para a moça do banco de trás, que traja uma humilde malha de promoção da Pelicano.
O produto original é caro, bem confeccionado, exige material de primeira qualidade, e trabalho quase que escravo de quem o produz. Existem os que até possuem o produto original, mas o utilizam por ostentação, e não por bom gosto ou senso de auto-crítica, e aí entramos em um exemplo da relativização da burrice.

Nada mais triste do que ver alguém com potencial, com postura, com ideais admiráveis, abusar tanto da massa cinzenta, até quando a massa necessária é aquela vermelha, ensanguentada e pulsante, que desgasta a peça mais preciosa do guarda-roupa da vida. Quem ostenta, abusa, e quem abusa, estraga. É como aquela auxiliar administrativa, que com seu salário de oitocentos reais, comprou aquela bolsa Louis Vitton linda, no crediário, passou fome o resto do mês e usou a mesma bolsa o resto do ano, todo santo dia. No ano seguinte, teve de passar fome por mais um mês, pra andar na estica por uns 4 ou 5 meses, e com um bagaço no restante do tempo.

Ser burro vicia, assim como usar a melhor roupa. Eis então o núcleo da segmentação da burrice: Os burros de berço, e os burros por vício. Os burros de berço são pessoas as vezes desfavorecidas, mas também muito desatentas. Quem vive em sociedade, não tem desculpa pra ser burro, nem mesmo por desfavorecimento social, uma vez que como já mencionado, inteligência nada tem a ver com estudo, ou status. Quem observa, olha em volta e pratica o princípio da empatia, é um ser de inteligência elevada.

O burro por vício, é o pior de todos, pois tem consciência de tudo o que já foi dito, julga-se inteligente, aprecia boa leitura, boa música, cinema alternativo (não uso a palavra “cult” em textos sérios), é politizado, mas se repete. Se repete, e se gasta, até que fica burro. E quando fica burro, esquece o princípio da empatia, que no passado ele até ensinou mundo afora. Para de prestar atenção, de olhar em volta, trai a si mesmo, e acaba virando uma caricatura do que ele mesmo já foi, quando começou a perceber a vida. Formula suas próprias teorias para justificar suas próprias idiotices, e maquia toda a sua mediocridade com um discurso rebuscado, e ar de deboche. É figura socialmente agradável quando quer, e ideal para relações superficiais, coisa na qual ele também acaba por se viciar.

Tudo por causa da repetição. O burro por vício, é o ex-inteligente.
O burro viciado, é o inteligente deteriorado.
Igualzinho aquele sapato Prada, já gasto e sem solado.

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P’ra dois mil e dez.

dezembro 31, 2009 · 3 Comentários

Eu quero paz de espírito
quero pensamento tranquilo
viver o que está escrito
quero andar sem vacilo.

Samba no pé
guitarra na mão
distância de mané
e ela no meu coração.

Que venha estabilidade
mas nada de bandeja
E pra irmandade
muito som e cerveja.

Muito humor fino
de sábado a sexta-feira.
Quero ver crescer o meu menino
e assar carne no Cabelera.

Quero ação e criação
poder subir numa van
rodar a nação
tocando rock n’ roll até de manhã.

Vou começar com o pé direito
junto e abraçado
com três amigos do peito
feliz e embriagado.

Feliz 2010, readers.
=)

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Corno Graduado, Ricardão Importado

dezembro 8, 2009 · 2 Comentários

Roniel trabalhava duro debaixo das parreiras, sob chuvas torrenciais e sóis escaldantes na cidade de Bento Gonçalves. Era o mais rápido pisador de uvas. Era conhecido na vila em que morava, como “sola roxa”, tamanha era sua interação com as roxinhas, que viriam mais tarde, embriagar os granfinos da cidade grande. Era de origem humilde. Seu pai, italiano radicado no Brasil, foi empregado na fazenda em que Roniel cresceu, depois de ser encontrado com a criança no colo, largado, no rigoroso inverno do sul do Brasil, no meio da estrada. Havia sido abandonado pela esposa, fogosa espanhola, que o trocou por um filho de ex-escravos, e agora cocheiro.

Apesar de europeu, seu pai mal sabia falar e nem escrever, em qualquer idioma que fosse. Compensava tudo com muito esforço, para criar o seu doce Roniel. Crescendo e vendo o pai, suando até a última gota, para dar o seu sustento, Roniel aprendeu cedo a dar valor às façanhas. Ao se tornar o pisador mais rápido de Bento Gonçalves, Roniel passou a ser protegido de Adílson, senhor das terras nas quais a família trabalhava.

Completou dezoito anos, e como prêmio, ganhou a chance de cursar uma faculdade. Escolheu o curso de arquitetura, pois havia visto na tevê do senhor Adílson os prédios de São Paulo, e resolveu que faria da cidade um lugar mais colorido. Mudou-se para Santa Maria, cidade universitária do estado do Rio Grande do Sul, e caiu de cara nos livros. Nos barezinhos da cidade, viu a diversidade de tribos, de estilos e passou a pintar os cabelos. Produzia-se como os mais descolados das turmas mais velhas, e nas andanças da noite gaúcha, encontrou Rafaela, jovem de beleza descomunal, e de conceitos muito mais avançados que os seus.

Rafaela ensinou-lhe os atalhos do corpo, mostrou-lhe as novidades do rock inglês, introduziu-o no mundo dos sites de relacionamento e por fim, o ensinou a apreciar arte e futebol. Macaca velha do hype sulista, Rafaela iluminou os pensamentos de Roniel, e aqueceu seu coração. Ele sonhava não mais apenas com cores em São Paulo, mas também com linhas tortas, ousadas e artísticas. Ele e Rafaela seriam mais importantes para a cidade do que Borba Gato.

Diante de tanta coisa, Roniel fez 3 anos de faculdade de maneira errante e inconsequente. Matou aula, fez loucuras com Rafaela nos banheiros do campus, teve comas alcoólicos em festas de república e até fez amor com um cachorro. Pegou três “DPs”, e só foi promovido por um conselho de mestres, que se compadeceram com sua história, e relevaram seu vislumbre. Roniel chorou por noites, envergonhado pela idéia que ele fazia da opinião de seu pai, a respeito do que lhe havia acontecido. Seu pai, semi-analfabeto italiano, que ainda naqueles dias, trabalhava de sol a sol, pisando as uvas do senhor Adílson, e enviava-lhe dinheiro, que ele torrava todo bebendo cerveja Polar, e vendo bandas ruins em clubes sujos. Decidiu então mudar.

Deu tudo de si no último ano, e só tinha olhos para os livros. Nem mesmo a beleza estonteante de Rafaela tirava-lhe a atenção. Ela insinuava-se para ele, passeava pelo seu quarto, entre o computador e o banheiro, só de calcinha de algodão branca, com detalhezinhos cor de rosa. Roniel suava frio, mas controlava-se, trazendo à sua mente a imagem de seu pai pisoteando uvas, com olhar sofrido e a pele queimada de sol. Para Rafaela, era difícil compreender tamanho afinco, ainda mais sabendo ela o quão gostosa era. O testemunho de Roniel a respeito de seu pai, aos ouvidos de Rafaela, parecia exagerado e até mesmo inverossímil, e ela passou a sentir-se rejeitada.

Enquanto Roniel só pensava no seu TCC, e se entupia de Frank Lloyd Wright e Aldo Rossi, Rafaela encontrava afago na internet. Conheceu Abraão, ilustrador emergente de São Paulo, ironicamente a cidade que Roniel sonhava colorir. Com sua linguinha doce, Abraão envolveu Rafaela, prometeu-lhe devoção eterna, abnegação e prazer infitino. De maneira sincera e intensa, as palavras emanavam da alma de artista de Abraão. Em um momento de carência extrema, preterida pelo TCC de Roniel, Rafaela resolveu bancar as passagens de Abraão até Santa Maria, para finalmente então, cair nos braços daquele que largaria tudo por ela, ao contrário de Roniel, que aos olhos de Rafaela, não passava de um “Caxias”, com o perdão da gozação.

Abraão chegou, conseguiu um emprego na cantina da faculdade, apoderou-se do corpo e da alma de Rafaela, sem que Roniel sequer percebesse. Chegado o dia da banca examinadora, Roniel apresentou o que havia formulado com afinco e a imagem de seu pai no pensamento. Tirou nota máxima. Correu ansioso para casa, esperando encontrar Rafaela e sua calcinha de algodão, para enfim celebrar.
Encontrou os armários vazios, e um bilhete de despedida. Rafaela partira há uma hora para São Paulo, com suas linhas tortas e ousadas, e as cores de outro. A Roniel restou apenas o sonho de colorir algum lugar acinzentado, mas não mais São Paulo, agora lugar maldito para ele.

Meses depois, com o senso de humor parcialmente reestabelecido, e o pai orgulhoso, permitiu-se uma piada infame: “TCC = Tô com Chifre na Cabeça”.

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O Amor ao Próximo.

novembro 20, 2009 · 1 Comentário

Devo te fazer uma confissão. Nunca consegui entender como se pode amar o próximo. A meu ver, é justamente o próximo que não se pode amar, só os distantes é possível amar. Certa vez, li em algum lugar a respeito de “São Julião Hospitaleiro”; certa vez um andante faminto e gelado entrou em sua casa e lhe pediu que o aquecesse; Julião se deitou com ele na cama, o abraçou e começou a lhe soprar seu hálito na boca purulenta e fétida, resultado de uma doença terrível. Estou convencido de que ele fez isso num assomo de falsidade, levado por um amor ditado pelo dever, movido pela epitimia que ele chamara a si. Para amar uma pessoa é preciso que esta esteja escondida, porque mal ela mostra o rosto o amor acaba.

A questão é saber se isso se deve às más qualidades das pessoas ou porque essa é a sua natureza. A meu ver, o amor de Cristo pelos homens é, em seu gênero, um milagre impossível na Terra. É verdade que ele foi um Deus. Mas nós não somos deuses. Suponhamos, por exemplo, que eu possa sofrer profundamente, mas outro nunca poderá saber até que ponto eu sofro porque ele é outro e não eu; além disso, raramente o homem aceita reconhecer o outro como sofredor (como se isso fosse um título). Por que não aceita, o que tu achas? Porque, por exemplo, eu cheiro mal, tenho cara de tolo, porque uma vez lhe pisei o pé. Além disso, há sofrimentos e sofrimentos: meu benfeitor ainda admite em mim um sofrimento humilhante que me humilha, a fome, por exemplo, mas se for um sofrimento um pouquinho mais elevado, em nome de uma idéia, por exemplo, esse não, esse ele só admite em casos raros, porque olha para mim e de repente percebe que eu não tenho aquela cara que, segundo sua fantasia, deveria ter o homem que sofre, por exemplo, em nome dessa idéia. E então ele me priva de seus favores, e isso sem nenhuma crueldade.

Os pedintes, sobretudo os pedintes nobres, nunca deveriam aparecer, deveriam, sim, pedir esmola pelos jornais. Ainda se pode amar o próximo de forma abstrata e às vezes até de longe, mas de perto quase nunca. Se tudo acontecesse como no palco, num balé, onde os pedintes, quando aparecem, estão vestidos em andrajos de seda e rendas rasgadas e pedem esmola dançando graciosamente, bem, neste caso ainda se poderia admirá-los. Admirá-los, mas, não obstante, sem amá-los.
Todavia, chega desse assunto.

Ivan Karamázov

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Ode ao Elogio.

outubro 23, 2009 · 8 Comentários

Numa dessas tardes monótonas de dia de semana, me meti a uma experiência antropológica virtual. Me peguei pensando em quão comum são os elogios que fazemos uns aos outros. “Você é bom”. “Você é linda”. “Você é inteligente”. Toda e qualquer coisa diferente disso é apenas uma variação disso, talvez com mais riqueza lírica, ou com nada mais do que rodeios. Acabei percebendo que até mesmo a mais cruel ofensa, se olhada da maneira certa, pode ser considerada como um belíssimo elogio, ou o reconhecimento de algo de extremo valor.
Se te chamam de “filho da puta”, pode-se interpretar como um louvor ao esforço da sua mãe em prover sustento a você, sem medir consequência, despindo-se de toda a moralidade que lhe foi ou não ensinada.
Se te chamam de “cuzão”, nada mais pode ser do que uma expressão um tanto grosseira, mas de reconhecimento de uma grandeza que tens: A grandeza anal. Afinal, porque “cuzão” há de ser ofensa, e “pintão” elogio? É tudo grandeza! E esses são apenas os exemplos mais óbvios.

Pois bem. Resolvi escolher a moça mais espirituosa da minha lista no MSN, para dizer-lhe palavras elogiosas, mas com sentido depreciativo, se visto de maneira rasa. E o resultado foi surpreendente. Obviamente ela não entendeu a coisa da maneira como eu gostaria, mas ao explica-la o processo, desenvolveu-se toda a tese mencionada acima.
Achei um gancho interessante: a foto de exibição dela. Disse que naquela foto, ela estava parecida com um zagueiro do Bangu. A reação foi despeitada, ela sugeriu que eu a excluísse, pois se não era do meu agrado, eu não deveria me obrigar a ver. Justo, porém equivocado. Expliquei a ela que todas as pessoas que habitam debaixo do sol, reclamam da falta de originalidade, da mesmice e da mediocridade, seja lá em qual forma ou segmento. Disse que se eu apenas dissesse um vago “eu te amo” a ela, estaria sendo simplório demais e igual a todos os outros.

Quando a comparei a um zagueiro do Bangu, eu estava apenas dando um passo além. E lamentei a falta de compreensão do fundamento. Ela seguiu despeitada, como se eu estivesse fazendo troça de sua figura. Então me pus a explicar que, ao compara-la com um zagueiro do Bangu, eu estava rasgando o protocolo, desmistificando toda a construção de figura frágil que foi imposta às mulheres desde os primórdios. Era um prêmio, um troféu pela conquista feminina, batalhada há muitas décadas, pela igualdade em relação aos homens perante a sociedade. Como durante essa luta toda pela igualdade muitas mulheres acabaram por se masculinizar, então o miolo de zaga do Bangu acabava por ser uma forte alegoria para esse quadro.
Hoje ela poderia encarar de frente um atacante de um Flamengo da vida, e ainda assim ser desejada e cortejada por qualquer homem de bem, e de mal também.

E porque zagueiro do Bangu e não do Bragantino? Porque o futebol carioca simboliza a bagunça que é o mundo pós-moderno. Isso tudo é muito mais denso e até mesmo mais valoroso do que um simples “eu te amo”.

Tudo que é original, a primeira vista é interpretado como complexo. Mas após digerir todo esse conteúdo elogioso e rebuscado (foi assim mesmo que eu expus a questão a ela), é certo que ela se sentirá mais valorizada do que se sentiram as musas de Chico Buarque. Então você meu camarada, quando se deparar com uma donzela que o encanta, não diga a ela “eu te amo”, “você é linda” e nem mesmo diga “você é brilhante”. Compare-a com o craque do campeonato carioca. Daqui muito tempo, ela há de lhe amar assim em retorno.

E são momentos como esse que valem mais do que mil notas de dólar.

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Desencontro

outubro 20, 2009 · 3 Comentários

A modernidade é mesmo uma benção. Graças aos avanços tecnológicos, é possível saber de tudo, até mesmo da vida alheia, sem sair do lugar. Sempre tive na cabeça, que pra escrever aqui, eu teria que ter saído, visto gente e vivido situações inusitadas. Nada disso. Basta abrir a orelha, e lá vem razão pra divagação.
Através desse canal, nos últimos dias recebi diversos tipos de relatos. Desde os alegres e efusivos, de gente em boa fase, até rios de lágrimas em pixels e caractéres, de gente em maus lençóis. Esses são maioria, obviamente. Talvez porque seja tendência reclamar da vida, talvez porque a coisa tá feia mesmo ou até mesmo porque talvez ser meu amigo dê azar.
Segundo os números que reuni de toda essa leva de histórias macambúzias, 91,7% das lamúrias, são lamúrias de amor. E aí na contramão disso tudo, o instituto Data-Dan constatou que 93,2% das pessoas que me cercam, se dizem desencanados de amar, bêbados libertinos, adeptos da pegação e hedonistas convictos, mesmo sem saberem o que a palavra significa.

Por que?!

Porque hoje em dia sentir, é o maior dos “guilty pleasures”. Se o cidadão sente, ele sente tanta, mas tanta vergonha de tal coisa que acaba por suprimir a flor roxa que nasce no coração dos trouxas, de modo que fica impossível se entregar. E atenção: ESSE NÃO É UM BLOG SEXISTA. Portanto não se ria minha senhora, pois você também está na estatística.
A micro-diferença de 1,5% de pessoas desencanadas de amar e hedonistas por convicção, é composta de gente que cansou da mediocridade existente por aí. Mas não entrarei nesse mérito hoje.

O ponto é que virou coisa feia o cara que escreve uma carta, derramando-se à sua amada. É motivo de gozação a exposição pública do que se sente. Se for ver, a gente é condicionado a isso, sabe-se lá porque. Nos tempos de escolinha, quando se gosta daquela lorinha da lancheira rosa, não se admite de jeito nenhum. E se os coleguinhas percebem o flerte, logo fazem troça e põem o ferinha apaixonado a chorar, traumatizando-o e condicionando-o a achar besteira cortejar uma moça.
A vergonha é tanta hoje em dia, que até mesmo as moças antes ávidas por cumplicidade, companheirismo, paixão e afeto entraram na dança do auto-boicote. Muitas incorporam o que há de mais idiota nos homens: A ostentação. Ser pegadora é legal. E mal elas sabem, que para os pegadores, reina a incoerência, visto que uma pegadora é sempre broxante, pois o gostoso mesmo, além de malhar e acelerar, é o desafio.

No meio dos meus números fictícios existem também os perdidos no meio dessa tormenta. Gente que já sonhou, que já sentiu, e que de tanto levar pancada, vive colocando a pontinha do pé na lagoa dos acovardados. Esses são os piores de se lidar, pois quando são maltratados, relegados a um segundo plano ou rejeitados de uma vez, se sentem enganados, revoltam-se contra a crueldade alheia e etecetera. Quando são cortejados, exaltados, louvados e recebem aquela atenção especial de garçom após gorjeta boa, se sentem acuados, reclamam da falta de espaço e se assustam, não importa qual a medida do bem-querer. São os reis do desencontro.

Ao fim das contas, pode-se jogar toda a culpa disso em cima da modernidade. Isso tudo aí é via de regra, basta saber quem tem coragem de vestir uma dessas carapuças…

Eu não tenho.

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Questão de Cor.

setembro 26, 2009 · 7 Comentários

Época de desemprego é sempre difícil. Falta o dinheiro para o social (mesmo que eu esteja mamando na teta da previdência até janeiro próximo, falta), faltam motivos pra sair de casa (o que em muitos dias acaba sendo bom), e o principal, falta ocupação. Eu como bom ariano, entedio-me facilmente das coisas, e até mesmo das pessoas, então pra mim, estar desempregado é duplamente difícil.

Pois bem. Em tempos como esse, a gente se apega às tão superestimadas “coisas simples da vida”. Sem querer menosprezá-las, mas é só o que sobra pra fazer mesmo. Minha vida social é constituída de um núcleo bastate firme e longevo, do qual fazem parte os irmãos Silvestrini, Diego e Pedro, que são meus amigos de infância, e também o já citado em algum texto passado João Paulo, ou Rodka, ou Parfen, ou simplesmente Cabelera. O que difere as nossas atividades “coisas simples da vida” das atividades extravagantes, é o poder aquisitivo, que no nosso caso tem uma dinâmica muito grande, acima do normal. Como somos todos grandes “bon vivants”, temos um momento extravagante por mês, com muita junkie food, bebida alcoólica e risos da vida alheia, e 29 dias de “coisas simples da vida”. Acaba sendo obrigação apreciar esse tipo de coisa, afinal. Ou isso, ou o suicídio.

Neste hiato de pouco mais de um mês sem abastecer esse espaço pouco visitado de palavras soltas, não houve sequer um dia de extravagância social. Cada um resolveu investir seu rico dinheirinho em algum outro tipo de prazer, ou desprazer. Então os dias e noites deste que vos escreve, foram bastante tortuosos. Já ouvi falar por muitas vezes de um tal de “ócio criativo”, então resolvi fazer uso dele. Reestruturei toda a parte de conteúdo na internet da minha querida banda, editei fotos, criei canais de comunicação… Foi uma festa! E encerradas essas tividades, nada, absolutamente nada me restou para fazer, a não ser ficar na internet me informando sobre o mundo e assistir a novelinha rural das seis. Cheguei a ficar 3 dias sem pisar na rua, o que já estava me deixando louco. Então na última madrugada, ao desabafar todo esse sofrer com meu nobre amigo Diego Silvestrini, chegamos a conclusão de que deveríamos sair, mesmo que de bolsos vazios, e colocar na “pindura” a conta da noite.

Como de costume, fomos até a padaria 24 horas do bairro, um tremendo progresso que melhorou as nossas inúmeras madrugadas de insônia. Pedimos o já tradicional X-Bacon Salada e uma Coca-Cola para cada um. Bebemos a Coca em suaves prestações, pra fazer o momento durar, e devoramos o lanche em menos de 5 minutos, pra fazer o estômago calar. Passava de uma da manhã, e depois de vermos o número musical do dia no programa do Jô, que era uma mulher com um vestido gótico idiota, começou o Intercine. “Adoradores do Demônio” era o título da película. Entre conversas sobre a indústria musical, sobre o passado feliz e distante, e sobre os planos ousados para o futuro, sempre dávamos uma espiada no filme, que se olhado da maneira correta, era muito engraçado.

Eis que em uma das pausas na conversa, resolvemos prestar atenção na seguinte cena: Um gordinho branco, típico americano, abre a porta de um quarto e lá dentro há um casal transando. Um negão, jogador de basquete style, mandando ver na loirinha. O gordinho se injuriou do nada e deu uns 5 tiros no casal. Trocaram a cena, entrou o protagonista no quarto e encontrou aquele cenário bonito, composto do casal pelado e ensanguentado e o gordinho sentado na cadeira da escrivaninha, morto e com um espetinho de churrasco atravessando-lhe a cabeça, orelha a orelha. Demos risada e então começamos a puxar pela memória todos os filmes do Intercine que vimos na mesma situação: Comendo X-Bacon Salada e tomando Coca a prestação.

E daí veio a constatação! Era o terceiro filme, TERCEIRO FILME, em que um negão transando era assassinado a sangue frio. O primeiro deles, um filme do qual não me lembro o nome, mas que logo no começo, um negão que dava uma no chuveiro foi morto na faca, por um Ninja também negão. O segundo deles, tinha um negão dando uma no mato, quando uma mulher aparentemente enciumada (a gente não ouve o áudio das TVs da padaria) o executou com uma pedra enorme na cabeça. E o terceiro foi esse, que morreu pelas mãos do adorador do demônio, na bala.

Daí nasceu a interminável discussão: Se a arte imita a vida, será comum que afroascendentes do sexo masculino sejam mortos enquanto transam? Seriam os diretores americanos de filmes-B, associados ao Klu-Klux-Klan? Seria o selecionador de filmes da Rede Globo, contrário à procriação da raça negra? Seria isso fruto de uma tremenda falta de criatividade em Hollywood? O que vocês acham?!

Eu acho que não chegaremos a lugar algum.

É claro que não! Que diabos de dúvida é essa?! Mas também….que diabos de tendência assassina é essa?!

Acho que o desemprego começa a me afetar de forma mais séria.

Vou ali assassinar algum negro sexualmente ativo e já volto…

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Aviãozinho

agosto 29, 2009 · 6 Comentários

Sentado na beira da cama,

pelado e de havaiana,

ele vira e reclama da ligação a cobrar.

São três da tarde,

e ele que não gosta de alarde,

abandona a namorada,

quando até a madrugada fica a trabalhar.

Quem liga é um funcionário,

que ele acha que pensa que ele é otário,

pedindo dispensa e deixando assim,

uma falta imensa que faz o chefe se preocupar.

Ele não é otário,

é só um aeroportuário com um trabalho sem fim,

de sentar-se todo dia e abrir o sistema,

na cadeira do check-in.

Tem estado abatido,

ninguém tem entendido

a mudança no seu jeito de ser.

A fofoca corre, deixa ele fudido,

pois naquele dia ao funcionário mais gozado,

haviam contado que ele estava a nove meses sem comparecer.

A dias consternado,

poucos sabiam que ele havia sido abandonado,

por não conseguir fazer o seu aviãozinho arremeter.

Culpa do trabalho escravo,

de salário mal pago,

que o faz adoerecer.

Ao fim do esforço, com dores no dorso,

Só vai ganhar um aplauso, nada no bolso,

e vai dormir feliz, por ter feito por merecer.

A namorada abandonada,

que não é boba nem nada, aproveitará a madrugada com algum camarada,

até a menstruação não mais descer.

E o aeroportuário,

finalmente feito de otário, realmente,

terá pela frente um bastardinho pra ver crescer.

Trabalha, trabalha, trabalha,

Broxa, broxa, broxa,

cabrocha, cabrocha, cabrocha,

canalha, canalha, canalha.

Se liga na falha,

acende tua tocha,

que esse teu emprego só te faz é perder…

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Insistência

agosto 12, 2009 · 2 Comentários

Ari era feliz, pois não sabia que era traído.

Josiel era triste, pois descobriu a cornitude.

Marta era feliz, pois não conhecia a miséria.

Deolinda era triste, pois vivia na merda.

“Seo” Arnapio era feliz, pois não sabia que sua estimada filha caçula era puta. Puta de rua mesmo.

“Seo” Hideaki era triste, pois havia flagrado sua filha única trabalhando na zona a qual ele mesmo frequentava.

Dona Arminda era feliz, pois não sabia que seu rebento cheirava e vendia na vila.

Dona Rosa era triste, pois achou um saquinho de “bicarbonato” no bolso do seu menino de ouro.

Valores a parte, afinal nem toda alegria citada seria alegria pra todo mundo, tampouco as tristezas, o filósofo Gegê acordou domingo cedo pensando nisso. Nas mazelas da vila. Ele era dono do boteco do bairro, então acabava sabendo de tudo. Aliás, ele mesmo deu com a língua nos dentes pro amigo Josiel, que só bebia Cynar, o drink do corintiano.

Tendo ciência de todo o quadro estabelecido entre as famílias que ao passar na frente do seu bar, lhe davam bom dia diariamente, Gegê, que era mesmo formado em filosofia, enxergava tudo aquilo com extrema melancolia. Não sabia o que era pior: a situação de quem nada sabia, ou a de quem tudo sabia. Apronfundou-se em pensamentos dessa natureza enquanto rolava no seu recém comprado plasma, o dvd novo do Exaltasamba.

“Na medida em que somos conscientes dos problemas que nos cercam, tornamo-nos infelizes com tais situações. É como se o fantasma que a gente acredita que exista desse as caras e soltasse um sonoro “búúúú”. Que diacho. Seria melhor então eu não ter estudado, não ter criado consciência, ter sido indiferente à realidade e ter ficado em paz vendendo cerveja, cachaça e torresmo? A cada bêbado com problema que encosta no meu balcão, choramingando, eu me conscientizo mais. Tenho mais exemplos de mazela. A criançada que joga bola aqui na porta é toda feliz… mas porque? Porque eles são inocentes, não conhecem as caganças do bairro, muito menos as da vida. Tá certo que filho do “seo” Pedro é um moleque pra baixo, mas ele conhece o desamor da mãe, a violência do pai (filho da puta ao qual me recuso a vender cachaça). Tá aí. Melhor é não saber. “Sifudê” viu…”

Ao fundo o bar preenchido apenas pelo som vindo da Tv: “Lêê…lê lê lê, lê lê lê lêêê…”

Chegando em casa, Gegê olhou entristecido para sua prateleira de mil livros, e resolveu queima-los todos. Queimaria também o dvd do Exaltasamba, do qual ele havia enjoado. No meio do seu surto de fúria, jogando tudo no chão, berrando e chorando, nosso velho filósofo sentou-se cansado, descabelando-se. Caiu do topo da prateleira um livro de Lacan, e ele começou a folhear. Passaram-se horas e ali ele foi se redescobrindo. Já tinha lido aquilo e muito mais, mas sob outra perspectiva. Além do que, o bar aonde ele bebia quando matava aula, acabou por tornar-se seu.  Então o leitor imagina…

Após a leitura, Gegê deitou sem queimar nada. Quem queimava algo, era o filho da Dona Arminda, em cima do telhado. Então Gegê pensou que a ignorância de nada servia também. Por mais tortuosa que fosse a verdade, era dela que vinha todo o crescimento. Que a evolução, que a única maneira de se domar os inevitáveis fantasmas da vida, era insistir neles. Insistir na consciência, a mais cruel verdade, o mais terrível fato. Insistir e insistir até que ele se torne totalmente absorvível. Esse era o lance novo do dono do boteco. Gegê roncava como um porco minutos depois de toda a conclusão.

Ao acordar depois do horário normal, levantou correndo, cheio de vitalidade e correu pro bar. Levantou a porta de ferro, passou aquele pano encardido no balcão, e esperou ansioso pelo primeiro cliente problemático, afim de cachaça e conselhos.

Gegê se sentiu além de filósofo diplomado, um psicanalista. Um autêntico dono de boteco.

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Kind Of Beauty

julho 29, 2009 · 5 Comentários

Mês de julho é o mês dos passeios semanais, das casas cheias em qualquer dia, de reencontro com aqueles batalhadores amigos que estudam e trabalham, em busca daquela sonhada carreira acadêmica que os respectivos pais sonharam desde o dia em que ouviram o primeiro chorinho rasgado, que lavaram pela primeira vez a pingolinha ou a periquita de sua cria. Época essa em que o RPM era sucesso e em que nem passava pela cabeça do cabeça da casa o tamanho da sordidez dos atos de seu recém fabricado, vinte e quatro, vinte e cinco anos à frente.

Fruto de um amor que talvez nem exista mais ou fruto de uma foda avulsa em baile de carnaval, não se imaginava também que aquela carinha de joelho poderia tomar tais formas atraentes. Que aqueles ombrinhos frágeis se alargariam de forma a formar a mais bela das saboneteiras. Que aqueles olhinhos apertados de tanto chorar teriam a mipoía que definiria a personalidade daquele rosto em óculos de armação fina. Que a esperneação por um peito cheio de leite evoluiria até um remelexo perturbador por um olhar. Que naquela cabecinha pelada haveria um corte da moda, que chacoalharia no compasso da banda, fazendo balançar também os joelhos e o coração de qualquer um que desse a devida atenção.

Ao me levantar, já sabia que esse não seria mais um dia ordinário. Após sonhar com os números da mega-sena, me estiquei olhando pra cima até me acostumar com a idéia de ainda ser pobre, então levantei-me, liguei o paulo-césar, joguei pra cima o pijama e fui me despertar no chuveiro, já pensando no percurso até o lar de minha paixão futebolística. É terça feira, véspera de rodada, dia de comprar ingresso antecipado. Dia cinza e feio como a maioria dos dias do mês de julho, aquele dos reencontros. Feita toda a rotina, parti para as tarefas do dia: contribuir para a renda dos pobres jogadores que atuam de verde, encontrar gente querida que não via a tempos e ao final de tudo, todos juntos, curtir aquele jazz, sem se preocupar com aborrecimentos.

Deixemos de lado a parte burocrática do dia e concentremo-nos apenas na parte onde a emoção aparece. Ao encontrar-me como peça fundamental de um quebra-cabeça hype, minha mais nova amiga filósofa sorriu, se assentou, tomou café, falou do trajeto e me escutou. Falou, me escutou, falou… Conversa boa, regada à cerveja e bom humor, fora os amendoins com casca de cebola e salsa. Achegou-se um artista pintor, o ambiente enriqueceu-se. Toda sorte de assunto apareceu, e nisso algumas horas se passaram. E aí o leitor pensa: “Mas onde diabos está a originalidade desse dia miserável? Eu também tenho amigos! Eu também rio, filosófo! Também bebo café! Eu também sou hype!”.

O já estabelecido e sagrado cool jazz de toda terça do mês de julho teria hoje a casquinha de cebola e salsa que havia faltado nas outras terças. Amendoim é bom, ainda mais com cerveja gelada, porém a casquinha de cebola e salsa dá o toque de originalidade à botecagem e a esse dia. Começa o som, uma introdução psicodélica que acabou desaguando em “All Blues”, do celebrante de bodas de ouro “Kind of Blue”, pra quem não sabe, clássico definitivo de Miles Davis. Tamanha a destreza da banda, pensei ser impossível desviar-se da apresentação. Nem mesmo a mais irritante mente com a mais irritante voz me faria reviver a tristeza e revolta de duas semanas atrás (leia “Cu Jazz”); Olhando para a minha esquerda, tive instantaneamente a certeza de que estava errado. Lá estava ela. Dançando conforme o balanço da versão funkeada e arrebatadora de “So What?”, a filha daquele pai sonhador, daquele que hoje no alto de sua sabedoria e calvice, se lembra dos tempos em que trocava as fraldas daquela beldade que se despedia umas duas horas mais cedo pra balada em plena terça feira. Aquela que nos pensamentos de seu pai, estudaria nutrição ou psicologia, conheceria um moço bom de família e daria netos aos futuros velhotes lá pelos 25.

Puro devaneio. Agora lá pelos 25, ela fumava, bebia e serpenteava na frente do palco, deixando boquiabertos o artista-pintor e eu. Ela parecia não ligar, nem se dar conta. A reação ao som e a imagem quase me levaram à catarse, que só não foi coletiva por falta de atenção dos demais. Eu que saí de casa cheio de pesar, de dor, de dúvida, de medo, como todo sujeito comum numa cidade grande, a partir daquele instante me via leve como uma pena. A beleza daquela criança imaculada do passado lavava a minha dor como o sangue de Cristo lavou os pecados da terra.

Da série de shows que Júnior Boca & Psicho Jazz apresentou nas terças do mês das férias estudantis, o de hoje foi o melhor. Mesmo com os noves fora, mesmo com apenas a música, os temas de Miles tão bem explorados pelo quarteto no palco. Foi arrebatador.

Mas a casquinha de cebola e salsa foi aquela que perpetuou-se na minha retina. Sem nome, só com formas e displicência. Aquela com encantos com os quais pai nenhum sonhará para sua filha, mas pelos quais qualquer ser vivo na terra há de ser grato ao pai celestial por existirem.

Já dizia o surrado texto de Dostoiévski: “… A beleza é terrível! Terrível” (…) Não posso suportar que um homem de coração superior e poderosa inteligência tenha a Madona por primeiro ideal e Sodoma por último. Ainda mais terrível, porém, é ter já o ideal de Sodoma na alma e não negar o da Madona, sentindo o coração se abrasar, sim, abrasar-se como nos inocentes anos de juventude. Não, o homem é vasto em suas concepções, muito vasto. Eu gostaria de torná-lo mais estreito. Diabo! O que ao cérebero aparece como abjeção é, para o coração, a quinta-essência da beleza. Estará a beleza encarnada em Sodoma? É lá que ela reside para a grande maioria dos homens – conhecias esse mistério? O que mais me apavora é que a beleza não só é terrível, mas também misteriosa. O demônio luta com Deus e o campo de batalha são os corações humanos. Aliás é sempre assim: só fala-se daquilo que nos faz sofrer. Vamos, pois, agora, aos fatos.”

Sim, a beleza é de fato terrível. Ou melhor, terrível é o fato de que eu nunca mais verei tal beleza.

E amanhã de manhã, todo o meu pesar vai estar de volta, com mais força e desesperança. Ao menos que o imponderável aconteça. Ou até o próximo amor de metrô, amor de fila de banco, amor de show de jazz…

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