Era ele o verdadeiro curva de rio. Todos o conheciam assim. No caminho do nobre rapaz, só aparecia móvel descartado, cachorro morto, galho quebrado de ávore velha, pneu careca e afins. Os amigos riam-se dele e ele ria de si mesmo. Mas o riso era amarelo. Por dentro ele se sentia um desafortunado e um injustiçado por Deus. A beleza rondava-lhe bondosamente, mas a pobreza de espírito e a ignomínia acabavam por caracterizar as fêmeas de sua vida como os dejetos acima mencionados. Na mesa de bar, era ele o porta voz das melhores histórias na visão dos gozadores, mas para ele o seu próprio riso era um lamento.
Pensando honestamente ao voltar pra casa após mais uma botecagem dominical, acabou admitindo que se suas histórias fossem as de outro, riria dobrado, riria até a bexiga transbordar. Mas como era ele o centro de toda a urucubaca, sentia-se miserável naquela noite. O papo gozado resultou numa melancolia sem fim. Era só mais uma repetição do mesmo filme de sempre: bela moça, troca de olhares, papo vazio, atração, amasso, álcool, amasso, álcool, carona, álcool, risadas fáceis e falsas, álcool, amasso, mudança de rumo no caminho pra casa, entrada no cinco letras, amasso, transa, álcool, transa, álcool, transa, noite mal dormida, telefone, recepcionista, conta, RG devolvido, silêncio, despedida, metrô, ônibus, casa, solidão. Telefone, papo vazio, atração saciada, desculpa esfarrapada. Telefone, papo vazio, aborrecimento, desculpa esfarrapada. Telefone, papo vazio, irritação, desculpa esfarrapada. Telefone, “rejeitar ligação”.
Resolveu então mudar de vida. Mudar de bar, mudar de amigos, mudar de bairro, de emprego. Tudo o que fosse possível seria mudado. Aquela pasmaceira emocional já o havia cansado, afinal, de que servia ser apenas carne e ossos em busca do prazer? Então ele virou hype, mudou até mesmo o guarda roupa e o perfume. Deu-se com gente inteligente, descolada, politizada. Se sentia um deles, inseria-se perfeitamente naquele universo. Comprou cds de Jazz, roupa xadrex, chapéu. Fez dread lock, depois desistiu. Uma vez com sua identidade capilar recuperada, se encontrou de vez e então se apaixonou. O mais improvável aconteceu: Ele que procurava luz, acabou iluminando-se em trevas.
Ela, velha de guerra nesse mundo letrado e bacanudo, era como ele, porém era macambúzia, atormentada, chegando até a ser intimamente melancólica. Bebia demais, e tinha crises. De choro, de nervos, de intestino, de epilepsia. Assim como o nosso nobre rapaz, uma curva de rio de primeira linha. Se o amor acontecesse, talvez tivéssemos uma competição de retenção de lixo.
Combinaram um cinema inocente, bebericaram chá, usavam cachecóis. Riam e discorriam sobre um documentário a respeito de um músico aí das antigas, e em meio a citações, beijaram-se. Ele ardia em alegria. Ela ardia em esperança. Do chá, passaram ao whisky e do whisky passaram aos lençóis. Era tudo diferente, era tudo como ele havia planejado! Os ventos da mudança finalmente sopravam em sua vida! Toda a medíocridade havia sido deixada para trás e iniciava-se ali uma nova e enriquecedora fase na vida do nobre.
E aconteceu que foi transa, álcool, transa, álcool, transa, noite mal dormida (porque camas de motel são horríveis), telefone, recepcionista, conta, RG devolvido, e ao invés do silêncio, um beijo que ela deu, que beirava o agradecimento. E depois veio o metrô, o ônibus e a espera pelo telefone. Só que o telefone não tocava. Passaram-se horas e depois dias. Depois semanas. Desencanou, caiu no mundo, sentiu aquela velha sensação de infortúnio e por fim riu de si mesmo novamente, como nos tempos medíocres. Tinha que rir, afinal, aquela tinha sido apenas uma noite, a primeira de talvez muitas naquele novo mundo. Ele só não esperava entrar novamente num círculo vicioso.
Conheceu outra desgraçada na vida, que apesar de toda a merda que trazia sob o chapéu e as costelas, era interessante, como a outra que não ligou mais. E a história se repetiu, e se repetiu, e se repetiu. Ele percebeu então que por alguma razão, ele só atraía moças internamente arruinadas. Pensou que uma vez curva de rio, sempre curva de rio. Bebeu, chorou e dormiu.
Nessa noite sonhou que chegava num píer e lá encontrava todas as mal-acabadas que o haviam abandonado, sentadas, bebendo vinho e rindo vivazmente. Beiravam a efusividade. Era um riso de redenção, de gozo, de prazer. Ao se achegar, foi percebido pelas moças. Todas se levantaram e formaram fila. Ele parado e atônito fez um cumprimento e então uma por uma, todas elas o abraçaram com ternura, afeto e gratidão. Sorriram-lhe, beijaram-lhe o rosto e voltaram a se sentar e rir, como se ele não estivesse mais ali. Era um sonho muito real. O despertador tocou, e o dever chamou. Ao levantar-se ele sentiu então que havia curado àquelas mulheres. De alguma forma, ao relacionar-se com elas, acabava por fazer uma limpeza no interior das moças. Imaginou a situação como fenômeno físico e então vislumbrou seu gozo lavando-as por dentro. Achou graça e então alimentou o causo da porra revitalizadora.
Nem se apercebeu de quão ridículo era aquilo, pois ao mesmo tempo em que limpava o interior das perturbadas, sujava-se todo com o lixo delas. Era uma troca injusta que ele não pôde perceber. Então chamando-se de “O homem do leite milagroso”, pois não queria mais ser curva de rio, retrocedeu e caiu no forró.